Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano, que vem se destacando recentemente no cenário nacional, principalmente tendo em vista que seus livros de maior impacto “Sociedade do Cansaço”e “Topologia da Violência” apenas foram traduzidos em 2010 e 2011, respectivamente.Radicado há tempos na Alemanha, ele leciona filosofia e estudos culturais na universidade de Berlin, com livros e artigos voltados para a área da sociologia, globalização e hipercultura.

O autor insere seus trabalhos numa profunda discussão entre poder e sociedade, buscando repensar as ferramentas do atual. Rebatendo autores como Antônio Negri, Michel Foucault, Hannah Arendt, Giorgio Agamben, Gilles Deleuze, entre outros, Byung-Chul Han  propõe uma nova visão sobre a sociedade contemporânea pautada pela positividade, e acusa todos os autores supracitados de em algum modo ainda permanecerem nas noções de negatividade.

Para o sul-coreano, a hipótese de Agamben de que “A morte impediu que Foucault desenvolvesse todas as implicações do conceito de biopolítica e mostrasse em que sentido teria aprofundado ulteriormente sua investigação”¹ e a posterior construção do autor italiano sobre o conceito biopolítico desdobrado no o Estado de Exceção e a Vida Nua são equivocadas e inadequadas ao mundo contemporâneo, que operaria sobre outras condições e modos de vida.

Aglutinando então uma série de autores do séc. XX, Han vincula conceitos como disciplina (Foucault), estado de exceção (Agamben), Vida Activa (Arendt), império e multitude (Negri) à noção de negatividade, que caracterizaria perfeitamente a sociedade do século passado, marcada por cárceres, reclusão e classes, mas não a atual, e propõe em seguida a sociedade da positividade, nos seus desdobres com a liberdade, transparência e cansaço, uma sociedade em que impera a liberdade e a dissolução das linhas de classe.

Capa do livro ‘Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder’, editado pela Editora Âyiné

Nesse contexto, o livro denominado “Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2014), traduzido pela editora Âyiné em setembro de 2018, é fundamental para compreender o pensamento do autor. Embora condense conceitos de seus outros estudos, traz como foco dois elementos principais de grande relevância, que intitulam a obra.

No livro, o autor expõe que o desenvolvimento do capitalismo na sua forma neoliberal enseja uma série de mudanças de ordem social, causando em grande medida uma inversão de conceitos e práticas. A sociedade do século passado, liberal, seria marcada pelos regimes de contrições ao corpo, ambientes de confinamento, reclusão, enfim, sistema fechado, o indivíduo como uma toupeira. Já o século XXI seria como uma serpente que se movimenta por uma série de espaços abertos, goza de liberdade e escolha, por mais que ilusória².

Em divergência a Agamben, conclui que a morte prematura de Foucault o impediu apenas de “repensar a sua ideia biopolítica e abandoná-la em favor de uma psicopolítica neoliberal”³; isto porque enquanto o regime disciplinar liberal visava ao corpo, o neoliberalismo visa à psique, daí a readequação por parte do poder em buscar mais eficiência.

Essa noção de otimização, eficiência do poder, é linha fundamental que guia o pensamento e permeia todas as obras de Han, é a partir disto que pauta suas reflexões. Como forma gerar mais, o neoliberalismo teria percebido um limite de produção da sociedade da negatividade, um limite de como a forma de exploração “clássica” teria a gerar lucro limitado, e pensado em uma nova forma de exploração do trabalhador, a autoexploração.

A autoexploração seria fomentada pelo psicopoder, desenvolvedor da concorrência entre os trabalhadores, da meritocracia, do desempenho, ainda mais a fundo, do “vestir a camisa da empresa”, do indivíduo que identifica a si mesmo no trabalho, o workholic. Seria como se, para o neoliberalismo, a tática não fosse a exploração de mais valia relativa e mais valia absoluta na forma de um aumento de horas trabalhadas e redução salarial,mas uma dedicação de livre e espontânea vontade do trabalhador em render mais, em atingir metas, em otimizar a si mesmo.

Restaria caracterizada uma sociedade não mais da disciplina mas do desempenho, em que as formas de controle se dão por meio de índices, bonificações, de curtidas, compartilhamentos, retuítes, enfim, certa maleabilidade nas situações em que o sujeito tem na relação com outro o parâmetro de comparação e concorrência. O diagnóstico desse tipo de sociedade pautada pelo desempenho mostra-se nos sintomas: o cansaço, a depressão, o burnout (síndrome do esgotamento), ansiedade, são implicações diretas do psicopoder que condiciona o indivíduo a se autoexplorar.

Cabe destacar que embora utilize o termo psicopoder, Han flerta com  à corrente psicanalítica que também versa sobre autoexploração4, coma linha da subjetividade proposta por Foucault e aproxima-se em certa maneira dos recentes trabalhos de Dardot e Laval e a proposta de uma racionalidade neoliberal, constituinte das novas formas de existência exigidas pelo neoliberalismo, não só posturas ou sistemas econômicos, mas necessariamente a relação entre modo de produção de vida5.

Para Byung-Chul Han o indivíduo versus coletivo é relação que possui efeito duplo, ao mesmo tempo em que as ferramentas de comunicação têm a capacidade de aproximar o outro, a virtualidade da internet e nossa conectividade permanente impossibilita o contato com o outro, apenas com a tela. Isto implica um ponto chave no pensamento da positividade, o dispositivo da transparência onde não há o outro, apenas a multidão indefinida distante de mim, presente no mundo virtual, o inferno do igual, e a urgência em competir para me diferenciar do outro6.

Observa-se que tal apontamento sustenta uma certa dissolução de classes ao afirmar que nessa igualdade (formal) todos se auto exploram, indiferente à hierarquia de subordinação. É justamente sob esse discurso de igualdade propagado pelo neoliberalismo que podem correr os ideais de mérito, de uma liberdade, em síntese, indiferença ao outro se não para superá-lo:

O capital se multiplica enquanto competimos livremente uns com os outros. A liberdade individual é uma servidão na medida em que é tomada pelo capital para sua própria multiplicação. Assim, o capital explora a liberdade do indivíduo para se reproduzir(…) A liberdade do capital se realiza pela liberdade individual7.

Essa apropriação da liberdade pelo capital seria manifesta na transformação do indivíduo homofaber em homo ludens, ou seja, agregando o elemento da competição, da meta, presente na gamificação, o homem transforma seu entretenimento em trabalho, em lazer, tornando o ócio impossível: a ilusão de pensar o trabalho enquanto lazer; e o próprio hobbie tornam-se competitivo, exigentes de desempenho, ou é monetizado8.

Psicopoder e neoliberalismo teriam ferramentas que captariam a liberdade do homo ludens na forma do desejo, utilizando-se das informações (disponibilizadas pelo próprio indivíduo) coletadas nas redes sociais para criar ambientes e direcionar o pensamento, pondo em xeque a extensão da liberdade. A exemplo, os centros de informação, os big data, os vazamentos de dados do facebook, são elementos utilizados pelo capital para direcionar e especificar produtos, aumentar consumo, sem que o individuo perceba a influência9.

Em síntese, estes são os principais elementos que gravitam a positividade característica da sociedade do desempenho. A psicopolítica seria então importante dispositivo referente a essa organização econômica denominada neoliberalismo, que atua sobre um campo fictício de igualdade e requer a todo momento diferenciação competitiva dos indivíduos.

O pensamento de Byung-Chul Han é poderoso e fundamental a discussões que almejem o hodierno no campo da filosofia e sociologia. Todavia, o modo como o autor pensa sua teoria, a reiterada negação da sociedade da negatividade, em seus termos, mostra-se como uma teoria de sistema fechado e com um caminho ao esgotamento em si.

As críticas aos vários autores muitas vezes dilatam interpretações dos mesmos para enquadramento no jogo negatividade x positividade, com exclusão do primeiro, ou seja, uma teoria que se apresenta como total, deixando pouquíssimo espaço a contribuições fora dos conceitos propostos pelo próprio autor.

Além disso, o esforço em demonstrar a sociedade da positividade vem em detrimento de uma série de temas ignorados em toda obra de Byung-Chul Han, tais como racismo, desigualdade de gênero, colonialismo e decolonialismo e fundamentalmente a pobreza. Toda teoria do autor passa como se todos os países fossem desenvolvidos e esquece uma geopolítica marcada pela exploração de países “periféricos” à Europa.

Reproduz desse modo a ilusão de igualdade que critica, reproduz padrão eurocêntrico de interpretação e visão de mundo. Ainda que certos elementos da positividade como a concorrência, o desempenho, as doenças mentais como ansiedade e depressão cresçam em países em desenvolvimento, vide Brasil, é erro falar em ausência de negatividade. A isto, basta destacar o Mapa da Fome da UNESCO, os altíssimos índices de encarceramento, relatório INFOPEM, Atlas da Violência, ambos no Brasil.

Ainda em território nacional, as recentes mudanças legislativas que precarizam em muito a condição do trabalhador, subida nos índices de desemprego, a decisão do STF sobre terceirização da atividade fim, são aspectos que tornam risíveis afirmações sobre “liberdade de escolha”; a grande parcela da população mundial, nem mesmo a ilusão da liberdade, apenas a miséria e a luta pela sobrevivência.

Se o psicopoder é dispositivo do neoliberalismo, e nesse sentido as contribuições de Byung-Chul Han são importantíssimas à discussão, não pode ser pensado como sucessão e supressão de outras formas de manifestações do poder, afinal, são formas, modulações e ramificações que constituem a teia do poder. A biopolítica foucaultiana precisa ser lida junto à tanatopolitica de Agamben, as políticas de vida e morte vigentes nos estados, como relembra Zaccone10, para aí então inserir o psicopoder como mais uma forma de controle sobre a população, dos corpos à psique, modulações do poder.

¹AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer e o Poder Soberano. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007, pg. 12.

²HAN, Byung-Chul. Psicopolítica e Neoliberalismo. Belo Horizonte, Ayiné, 2018, p. 31.
Sobre a toupeira e a serpente, clássica análise já proposta por Deleuze e também Sandro Chignola.

³Idem, p. 39.

Como principal expoente, conferir: BUTLER, Judith. A vida psíquica do Poder: Teorias da sujeição. São Paulo: Autêntica, 2017.

5Conferir em: DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo. Editora Boitempo: São Paulo, 2016.

6HAN, Byung-Chul. Psicopolítica e Neoliberalismo. Belo Horizonte, Ayiné, 2018, p. 19.

7Idem, p. 39.

8Idem, p. 75.

9Idem, p. 80.

10ZACCONE, Orlando. Indignos de Vida. Rio de Janeiro: Renavam, 2015.