Na perspectiva Hardt e Negri, o “pós-mordernismo”¹ e suas observações, seriam como um sintoma da transição da sociedade rumo ao império. Destacam, dentre outros itens, o absoluto “não lugar” (2001, p. 230) que o império fomenta, o controle absoluto, a não localidade de um foco de poder, ou dum espaço que se poderia ser tomado (o estado).  Esse não lugar, seria não só uma característica do império, mas também uma estratégia de controle de modo a inviabilizar resistências e revoluções.

O “não lugar de exploração”, ou seja, a exploração em todo lugar, constituiria a principal estratégia de dominação: não dividir e conquistar, mas incorporar e estimular. (HARDT, NEGRI, 2001, p. 222). Tal configuração, só poderia ser combatida pela revolução em “todo lugar”, a constituição de um anti-império global e simultâneo também não localizado, que conectasse as lutas nas diferentes regiões na terra pela identificação do império como inimigo e a insatisfação geral como denominador comum (2001, p.231).

Promover uma reterritorialização, uma desterritorialização total, ou a afirmação de um “novo lugar no não lugar” (HARDT, NEGRI, 2001, p. 235), são estratégias possíveis que remetem sobretudo a um topos e fazem pensar na necessidade de uma heterotopologia, a ciência das hetero-topias.

As utopias, próprias aquilo que não tem lugar, são facetadas as utopias localizáveis, as hetero-topias, outros lugares, perfeitamente assinaláveis dentro do real. Inclusive, são variadas as hetero-topias, são biológicas, são desviantes, são produzidas pela sociedade, características ao seu funcionamento, principalmente por colocarem lado a lado, em um espaço real, vários espaços que deveriam ser incompatíveis. (FOUCAULT, 2013)

As prisões, as colônias, o exército, o resort de férias, foram e são hetero-topias que funcionam num duplo de ilusão que denuncia a realidade ou, ao contrário, cria espaço de ordenação e perfeição que tornam os outros desajeitados, mal posto (FOUCAULT, 2013). Nota-se que não são instituições de sequestro – tratando-se de terminologia Foucaultiana – muito embora estas sejam frequentemente heterotópicas. A isto, porque: as hetero-topias são necessariamente contestação, contestação de outros espaços, são também potências.

Pensar as hetero-topias, as utopias localizáveis, tem como marco zero e primeira exigência o corpo, “topia implacável”. O corpo é o contrário de utopia, é estar irreparavelmente neste lugar: “E é nesta desprezível concha da minha cabeça, nesta gaiola que não gosto, que será preciso mostrar-me e caminhar; é através desta grade que será preciso falar, olhar, ser olhado, sob esta pele, deteriorar.” (FOUCAULT, 2013, p. 7-8). Eis o potencial utópico, pensar um lugar fora dos lugares, em que eu habitaria um corpo sem corpo, um corpo sem órgãos.

Porém, o corpo é também experiência utópica na medida em que marca em si elementos que são exteriores a ele, arranca a si mesmo e remete-se a um outro lugar por meio de signos e cifras que permitam estabelecer tais transposições: a máscara, a tatuagem, a pintura, são alguns dos exemplos. As utopias nascem do corpo, se voltam contra ele, em todo caso, ele, o corpo, é o motor e ator principal da constituição das utopias e das hetero-topias. (FOUCAULT, 2013).

O que o meu corpo pode criar? Como podem nossos corpos revolucionar e resistir? Uma política de corpos precisa pensar na criação de espaços hetero-tópicos que contraponham outros espaços, que desafiem, dentre os vários lugares reais, outras formas de se existir e de viver coletivamente, esta, é a razão.

As indagações Foucaultianas, sobre a tomada da guerra como modelo de análise as relações de exercício de poder (2010) (e os limites de tais interpretações), assim como das formas de cuidado de si (2014), de formação de outras subjetividades, – ou dum corpo sem órgãos² – de modificações da própria conduta, enfim, toda uma dimensão ética de potencial revolucionário (FOUCAULT, 2018), encontram na insurreição articulações capazes de ler e pensar em estratégias de resistências e luta para modificação das opressivas relações de poder .

Tal perspectiva requer uma espécie de revisão sobre aquilo que já foi feito e ainda é, em terrenos de revolução, de práticas coletivas, de corpos a criar outras formas de vida e de sociedade. Isso para compreender o porquê perde-se tanto, como as insurreições são rapidamente lidas e captadas dentro de contra-insurreições que as anulem, perceber quantas derrotas são consequência de um equivocado foco. (COMITÊ INVISÍVEL, 2015)

Não obstante, não é sobre a busca de uma grande teoria que articule tudo, que aponte as falhas de outras perspectivas enquanto apresenta-se como grande solução ou razão verdade, ou ainda que sobretudo buscasse enfim um consenso dentro das teorias críticas coroando com uma grande verdade imperativa.

É construir um mapa, ou seja, dentro dos limites do trabalho, fotografar, um decalque (DELEUZE, GUATTARI, 2011) do hoje que permita acesso ao mapa absolutamente múltiplo e diverso que se compõe das diferentes estratégias. O jogo entre a diferença e a repetição comporta aqui primeiro aspecto: a diferença entre os revolucionários não como disputa ao poder, mas como exercício de liberdade.

Como remonta Grós, uma das principais desarticulações é a ideia democrática de consenso, de verdade, de paz; o contrário, há de se ter em mente uma “cacofonia” de vozes, a divergência e a pluralidade absolutas como prática não homogeneizante que só assim é capaz de comportar uma dimensão coletiva sem esmagar a individualidade. (GRÓS, 2018).

As estratégias de insurreição contemporâneas precisam ler o presente, escapar das formas de controle, combater, articular – dentro de suas diferenças – combinações, sobretudo, criar e afirmar irredutivelmente, face o risco:

Enquanto ser de esquerda quiser dizer: negar a existência de verdades éticas e substituir esta carência por uma moral tão frágil quanto oportuna, os fascistas poderão continuar a passar como única força política afirmativa, como os únicos que não se desculpam por viverem como vivem, eles irão de sucesso em sucesso e continuarão a fazer convergir para eles próprios a energia das revoltas nascentes.(COMITÊ INVISÍVEL, 2015, p. 41).

Novamente a pergunta: o que pode a topia do meu corpo? Como o eu pode estabelecer um relação com o outro que o preserve, mas também o relacione? Que ética podemos viver?

[1] Cf. O Anti-Édipo,Deleuze; Guattari, 2010; Mil Platôs, Vol. 3 (2012) , Platô 28 de novembro de 1947, p. 11ss.

[2] Sobre o termo, delineiam o movimento principalmente pelas contribuições de Lyotard, Baudrillard e Derrida. (Cf. HARDT, NEGRI, 2001, p. 157-158.)

REFERÊNCIAS

 DELEUZE; GUATTARI, Mil Platôs, Vol. 1: São Paulo: 34, 2011.

HARDT, Michael; NEGRI, Antônio. Império. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.

______, Multidão. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004.

FOUCAULT, Michel. Heterotopias, N-1, 2013.

_____, Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010.

_____, Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2014a.

_____, O Enigma da Revolta, N-1, 2018a.

GRÓS, Frédéric. Desobediência. São Paulo: Ubu, 2018.

INVISÍVEL, Comitê. Aos Nossos Amigos. Brasil, 2015