Filósofos inovadores

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Há um acontecimento Nietzsche em Ortega, em Sloterdijk, em Flusser – como também há um acontecimento Deleuze em Agamben, em Byung-chul Han e Jean-Luc Nancy.

Filósofos inovadores são pensadores inventivos e são poetas da futuridade, razão pela qual eles aproximam a filosofia da compoesia. Essa aproximação entre os inovadores e os inventivos foi a forma de me encontrar com eles ou talvez de me surpreender com os motivos que me levaram até o coração de suas obras. Eventuais enquadramentos ou leituras enviesadas de grandes pensadores, sobretudo os mais corajosos e os chamados inatuais, são descobertas importantes da garimpagem intelectual na vida de um grande autor ou da cultura de uma época ou um país.

Esse diálogo ou aproximação dos filósofos citados ou outros – como os encontros de Foucault em Rilke; de Nietzsche em Fernando Pessoa e tantos outros autores que me são caros – formam essa constelação ou plêiade de pensadores da futuridade, os criadores e inovadores da Cidade Futura.

Vejam, por exemplo, o caso de Ortega Y Gasset. Ao ler os seus livros e meditar suas contribuições educacionais e culturais, metafísicas e filosóficas, fiquei completamente tomado por tamanha inventividade intelectual.  Os usos que por vezes a própria filosofia de matriz acadêmica, sobretudo, alguns midiáticos usuários que tomam autores como Ortega para fazer proselitismo de suas vaidades ou truculência, pode ser uma perda muito grande para a tradição e a cultura filosófica do país. Não me conformo – nas rápidas buscas que fiz na Internet – com os usos que alguns desses “influenciadores” fazem, por exemplo, de Ortega, com o propósito de ganhar adeptos” ou dar ar de erudição e eloqüência para praticar a antifilosofia com seus “seguidores”.

As leituras instrumentais ou mesmo grosseiras de um grande autor, como o filósofo espanhol, impendem essa aproximação que destacava acima. Por isso – somente por isso – seria gratificante a retomada do nosso ”Convite para Pensar” esses inovadores e conhecer suas obras, refletir com zelo e rigor, com probidade intelectual, contextualizando histórica e culturalmente cada um deles e valer afirmativamente de suas contribuições.

Os filósofos inovadores são poetas inventivos. Eles nascem ou (se) produzem em suas próprias inovações conceituais ou agudeza de suas análises, seja em relação a grandes temas de seu tempo seja aqueles que devem ser lidos com a devida distância ou ‘situações de mundo’ – Ortega dizia, circunstância, entorno ou paisagem – em que se encontram. E são inventivos como os poetas, pelos conceitos que criam, pelo estilo de fazer filosofia, a maneira original de produzir ou esculpir os seus pensamentos, e das entregas ou partilhas de suas descobertas.

Alguns deles fizeram de suas vidas o próprio acontecimento filosófico, suas biografias são o querer interagir filosofia com e como poesia. Chama atenção neles as razões dos seus afetos, a elegância dos seus escritos, a arte da sua partilha e /ou inscrições na vida acadêmica e fora da academia. Como pode-se observar, quase todos os filósofos inovadores pecam pelo excesso de vida com que produzem ou investem os seus pensamentos, os gestos e movimentos que irradiam, a generosidade que guardam ou compartilham dentro de uma comunidade de afetos e de leitores.

Desta forma fazem dos excessos o seu convite para os acessos. Talvez por isso alguns deles enlouquecem ou deixam enlouquecidos os seus leitores ou amigos próximos. Tornam-sem intempestivos, excessivos, “arrogantes” indomáveis: Hölderlin; Hegel; Heráclito; tantos outros. Que alegria para o leitor que conversa com eles, que explora as suas criações, com a dignidade intelectual da qual são testemunhas.