Filósofos inovadores – 4

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Minha ideia de inovação é bem pós-antiga. Ela tem a idade do ovo. In/ovar, germinar e germinar de novo, dar-se a um novo começo.

O ‘novo’ em filosofia é uma conversão de infinitas germinações, de possíveis resoluções e respostas a problemas ou questões axiais no campo das crenças e das práticas, na vida e no processo tecno-poético, de enobrecimento ou improbidade das ideias e dos valores vitais.

Novo em filosofia consiste em revocar a resolução já dada por ou como certa, definitiva ou consolidada.

Outro sentido de “novo” em tecnologia. Inovar tecnologicamente diz a arte de resolver um problema embutido no dilema humano entre conservar ou mudar; manter a tradição, reformar ou revolucionar.

Tecnologia significa, sempre, uma nova tecnologia, com base nas pesquisas e nas inovações de resolutividade e utilidade.

Ortega, em suas “excursões ao subsolo da técnica” já observava que “o homem é técnico”. Depois de alertar sobre a “pavorosa superficialidade” sobre a técnica¹, o  filósofo afirma a necessidade – esse, o imperativo! – de aprofundar a conexão da vida humana não com a técnica em sim, mas com a questão da técnica. Por ora, podemos considerar que esse ‘novo’ da tecnologia não corresponde ao novo em filosofia. O novo em filosofia é a conexão vital da dimensão técnica do homem.

Por outras palavras: o novo em filosofia é a sua compoesia. É a sua criação e produção, a sua destinação e distribuição. Refiro-me, pois, menos às ‘técnicas’ dos meios e mais aos sentidos dos usos – incluindo-se a etimologia dos usos dessas palavras – dos recursos possibilitados pelos inventos humanos. Como bem observa Ortega:

A vida de cada um de nós é algo que não nos é dado feito, presenteado, mas sim algo que há que fazer. A vida dá muito que-fazer; mas além disso não é senão esse que-fazer que dá a cada um, e esse que fazer, repito, não é uma coisa, e sim algo ativo, num sentido que transcende todos os demais².

Esse ‘novo’ da tecnologia não é, pois, o novo em filosofia. O novo em filosofia é a sua compoesia. Refiro-me menos às suas ‘técnicas’ e mais ao jeito ou modo de se criar e produzir, destinar e distribuir. Isto é: o programar e o fazer-se humano. Fazer-se tecnicamente no sentido de autopoesia.

Fazer com quem? Para quem? Como?

Cada vez é mais difícil separar o homem da técnica. Eis a importância da distinção entre ser (=homem/ homo sapiens) e vida humana (= homo techné/ inter + legere). E aqui destaco essa importante influência de Spinoza (talvez via Nietzsche) sobre o filósofo espanhol. Neste ponto sou todo Flusser. Arte e técnica, juntas/separadas… pela poesia e a tecnologia. Temos muito que avançar neste conceito de inovação em filosofia, em direção à compoesia. (01/10/19).

A inovação em filosofia não é uma (técnica sem) ficção, mas um sonho.

Ao chamar ou nomear e qualificar – e não definir – esses inovadores de ‘poetas da futuridade’ refiro a eles como doadores de sonhos, de caminhos, de sentidos, de chances. Uma chance para que um povo inteiro ou um único homem possa sonhar: eis a inovação que o poeta e sua compoesia nos dá, sem nada pôr e nada retirar do lugar. Sonhar. Apenas sonhar.

A inovação em filosofia não é uma técnica sem ficção, mas um sonho. Seria a técnica um devaneio poético desses filósofos da futuridade?³

Por isso chamo, isto é, nomeio, mas não os defino, de inovadores esses poetas da futuridade : são doadores de sonhos, de caminhos, de sentidos, de chances. Uma chance para que um povo inteiro ou um único homem possa sonhar: eis a inovação que o poeta e sua compoesia nos dá, sem nada por e nada retirar do lugar. Sonhar. Apenas sonhar.

1 – A superficialidade é compartilhada por quase todas as questões que se referem verdadeiramente ao humano no homem, observa (Meditações sobre a técnica, p. 45).
2 – Meditações sobre a técnica, pág. 51.
3 – José Paulo T. Orteguianas. Aventuras filosóficas desde dentro das meditações orteguianas. (Em mãos).
4 – José Paulo T. Escritos da compoesia. (Em mãos).