Nesta semana, o Guia para novas leituras traz um roteiro para acompanhamento da conversa entre o professor Rodrigo Duarte e os participantes da aula Vilém Flusser: pós-história e realidade brasileira. A atividade aconteceu no dia 17 de junho e foi dividida em dois momentos: a exposição de conteúdo ministrada pelo prof. Rodrigo (e que pode ser revista aqui) e um diálogo mediado pelo antropólogo Eugenio Lacerda.

A aula Vilém Flusser: pós-história e realidade brasileira fez parte de uma série de eventos realizados pela Cidade Futura em comemoração ao Centenário de Vilém Flusser, nascido no dia 12 de maio de 1920. Confira o Guia!

A consolidação e predomínio das imagens técnicas quando comparadas à escrita, a crítica flusseriana ao divertimento – 1min10seg

Eugenio Lacerda: Obrigada pela apresentação, professor. O professor José Paulo Teixeira gostaria de ouvi-lo sobre a questão do fim da escrita e a pós-história em Flusser. E o Paulo Lucas da Silva pergunta: “haveria como relacionar essa não-digeribilidade da diversão, do divertimento, com a expressão de Adorno e Horkheimer? A indústria cultural não sublima, reprime?”. 

Rodrigo Duarte: Bom, a questão do José Paulo é exatamente isso, né. Quando Flusser pensa no que ele chama de códigos fundantes, que primeiro foi a imagem tradicional, depois passou a ser a escrita e, depois, a imagem técnica – ou tecnoimagem -, ele pensa o seguinte: que são códigos que surgem e acabam se impondo no âmbito social. E essa imposição pode demorar muito tempo. No caso da escrita, ele acompanha esses historiadores que supõem que as primeiras manifestações da escrita começaram no milênio terceiro antes de Cristo, mas a escrita só se consolidou como código realmente predominante na Europa a partir do século XVIII, na Europa revolucionária, na Europa pós Revolução Francesa em que a educação, a oferta da possibilidade de alfabetização virou uma obrigação do Estado. E isso trouxe a Europa a essa situação bastante central, embora, depois, tenham surgido outros polos importantes no mundo como os Estados Unidos da América ou, no Oriente, Japão, China, Coréia etc. A Europa consolidou esse ponto de vista histórico por serem sociedades altamente alfabetizadas. Então, isso caracteriza o predomínio da escrita e, portanto, da história para o Flusser. Se a gente comparar quanto tempo a escrita demorou para ser o código fundante principal da cultura, pelo menos no Ocidente, com o caso das imagens técnicas, veremos que esse predomínio foi muito rápido, foi avassalador. Não temos nem dois séculos desde que surgiram as imagens técnicas e, hoje, elas predominam. E, em muitos casos, em muitas sociedades, as pessoas passaram da experiência de um predomínio das imagens tradicionais diretamente para essa situação de submissão às imagens técnicas sem passar pela história, pela escrita. Elas passaram diretamente da pré-história para a pós-história nesse sentido. Na questão do Paulo Lucas, de fato, esse instantâneo chamado ‘nosso divertimento’ no livro Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar é o capítulo mais adorniano barra horkheimeriano do livro inteiro. No capítulo, a crítica que Flusser faz ao divertimento é muito parecida mesmo com a crítica que Adorno e Horkheimer fazem na Dialética do esclarecimento dedicado à indústria cultural. A vinculação para mim é total, completa.

A não-história na cultura brasileira e uma alternativa aos impasses vividos atualmente pelas sociedades históricas – 6min03seg

Eugenio Lacerda: Professor Rodrigo, temos duas perguntas sobre a cultura afrobrasileira mencionada pelo senhor na sua exposição: o que seria a miséria brasileira na visão de Flusser? A arte cultural afrobrasileira tem muito a ensinar na pós-história já que somos influência grega, romana e cristã? E o Rodrigo Barbosa, na mesma linha, pergunta “como o entusiasmo com os gestos da cultura afrobrasileira se relacionam com a pós-história em Flusser”? 

Rodrigo Duarte: Dá para quase responder as duas questões conjuntamente. O Flusser, no livro Fenomenologia do brasileiro: em busca de um novo homem, fala muito pouco de pós-história, até porque ele ainda estava elaborando a noção de pós-história. Só a partir de meados para final da década de 70 é que ele tem uma noção clara do que seria a sua concepção de pós-história. Mesmo assim, nesse livro escrito em 1972, já aparece algumas vezes o termo ‘pós-história’, mas ele diz o seguinte: no caso do Brasil, não dá para a gente falar em pós-história, porque, como é uma sociedade predominantemente não-histórica, não faz sentido falar nem em pré e nem em pós-história. No caso do Ocidente, é mais fácil, pois ele se concretizou como um tipo de sociedade eminentemente histórica. Então, todas essas tendências no sentido de superar a história apontam no sentido de uma pós-história, de uma experiência pós-histórica mesmo. E, no caso do Brasil, qual seria a conexão? Essa síntese que a cultura brasileira poderia realizar entre a história e a não-história poderia ser uma alternativa aos impasses que a história trouxe ao Ocidente e, a gente poderia até dizer mais, ao mundo dominado pelo Ocidente. Então, a questão da gestualidade na cultura de base, que Flusser identifica nessa cultura afrobrasileira, mostra esse caráter sacral da cultura. E essa sacralidade aponta para esse elemento essencialmente não-histórico da cultura. Então, o Flusser faz essa distinção entre a não-história primitiva – que equivaleria a Pré-história, a um tipo de vida totalmente rudimentar e carente de possibilidades etc. Em termos de Brasil, ele faz a distinção entre não-história primitiva e não-história consciente. Essa não-história consciente é que seria uma alternativa, segundo Flusser, aos impasses que as sociedades históricas têm vivido nas últimas décadas, talvez no último século. Quer dizer, a gente poderia resumir isso um pouco assim: a não-história consciente, a não história refletida, que o Flusser vê como possibilidade a partir da cultura brasileira, poderia fornecer às sociedades pós-históricas, no sentido mais estrito do termo, uma alternativa de convivência, de experiência cultural etc.

O intuição de Flusser sobre as imagens digitais e o conceito de tecnoimagem, a relação de Flusser e Adorno, o pensamento flusseriano e a teoria crítica e o marxismo – 11min101seg

Eugenio Lacerda: Professor, nós temos agora duas questões a respeito das tecnoimagens. O Rodrigo Barbosa pergunta: “como Flusser relaciona a pós-história das tecnoimagens com os computadores e os códigos binários?” E a Fernanda Almeida pergunta: “a concepção de aparelho é desenvolvida por Flusser em seus livros sobre a fotografia nos anos 80. Em Filosofia da Caixa Preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia, ele demarca a diferença de seu pensamento com o marxismo e até mesmo com a Escola de Frankfurt, pois, para ele, seria necessário encarar a autonomia dos aparelhos e essas linhas ainda procurariam um senhor ao qual eles serviriam. Professor Rodrigo, quais sãos as principais semelhanças que o senhor observa entre o pensamento flusseriano e uma abordagem marxista sobre as mídias de massa”?

Rodrigo Duarte: É curioso o caso, por exemplo, das imagens produzidas a partir de códigos digitais, porque, quando Flusser concebeu a tecnoimagem, ainda não estava no horizonte a existência dessas imagens digitais. Entretanto, ele enxergou na fotografia convencional, mesmo sem saber que dali a pouco surgiram as imagens digitais, o primeiro modelo de imagem técnica na medida em que elas são imagens produzidas por equações, ou seja, códigos lineares – equações químicas para a revelação do filme, equações matemáticas para a mecânica das câmeras e para a parte ótica. Então, são códigos lineares gerando a possibilidade da produção de superfícies que irradiam mensagens. Isso parece um pouco forçado para a gente, mas, quando surgem as primeiras imagens digitais, – e o Flusser ainda teve contato com elas, porque  ele morreu em 1991 e as imagens digitais já existiam, ainda que não fossem tão difundidas como são hoje – ele entendeu claramente que as imagens digitais funcionam dentro do conceito, embora o protótipo das imagens técnicas tenha sido a fotografia mecânica convencional. O protótipo foi esse, mas a síntese teórica do que são as imagens técnicas são as imagens digitais. Por que? Porque elas são as imagens produzidas a partir de linhas de comando. Foi um caso curioso de uma intuição que o Flusser teve em relação a um fenômeno cuja explicação não era 100% satisfatóri0a, mas veio a ser muito mais evidente depois com o advento das imagens digitais, computadorizadas etc. Na questão do Flusser com o Marx e a teoria crítica, é uma das questões mais fascinantes de todas. O Flusser era filho de um intelectual socialista, marxista. O pai dele era professor universitário em Praga e, como também era judeu, esteve na mira dos nazistas que invadiram Praga em 1940 e acabou sendo assassinado, levado para um campo de extermínio. Então, o Flusser tinha uma familiaridade desde criança com o marxismo e, ao longo da vida dele e da carreira teórica, ele sempre esteve em um certo embate com o marxismo no sentido de que ele achava que o pensamento de Marx era exemplo, ou espécime de um paradigma que estaria já superado, ainda de uma filosofia do sujeito, quando, na verdade, existiam processos, estruturas etc. Em muitos momentos, até nesse trecho que eu citei da Fenomenologia do brasileiro, ele cita Marx, mas não necessariamente no sentido de criticá-lo. Em relação à teoria crítica acontece uma coisa semelhante no sentido de que ele sempre se debateu um pouco com essa influência da teoria crítica. Então, em vários momentos ele fala de Adorno. Eu tenho, inclusive, um artigo sobre isso e a pesquisa que até hoje eu estou realizando com um livro que estou escrevendo é, exatamente, sobre a relação entre o pensamento de Flusser e a teoria crítica da sociedade, principalmente no Adorno. Houve, inclusive, um encontro pessoal do Flusser com o Adorno em 1966. O Flusser conseguiu um apoio do Itamaraty para fazer uma turnê por universidades europeias e americanas. E, em Frankfurt, ele foi recebido pelo Adorno. O consulado brasileiro arranjou para ele ser recebido lá, para ele fazer uma palestra no Instituto para Pesquisa Social e o Adorno era diretor interino do instituto e o recebeu. Existe uma carta do Flusser ao Adorno agradecendo pela acolhida gentil, dizendo que ficou muito impressionado com a discussão. Então existem cartas, documentos privados, coisas não publicadas. Por exemplo, uma carta do Flusser para o Milton Vargas em que ele fala horrores do pensamento do Adorno: ‘como é que uma pessoa pode ser tão pessimista assim…’ e, por outro lado, existem manifestações dele muito favoráveis também. Eu acho que isso tem uma certa característica do Flusser de uma certa oscilação, digamos, entre determinados polos e, normalmente, em questões que acabavam sendo bastante vitais para ele. Mas, assim, é como eu disse, no livro Pós-história – que é o livro do Flusser que eu considero mais próximo da teoria crítica – existem passagens que, se a pessoa não conhecer e alguém mostrar e falar que era do Adorno, a pessoa poderia muito bem aceitar. Enfim, acho que é uma questão que está em aberto, tanto é que eu tenho essa pesquisa que ainda estou desenvolvendo, mas é muito mais complicado do que você simplesmente tomar pelo valor de face uma ou outra expressão, assim, do Flusser crítica e até raivosa em relação à teoria crítica. 

O brasileiro democrata de Flusser, a pujança da cultura brasileira e a influência do conceito de massa de Ortega y Gasset – 20min46seg

Eugenio Lacerda: Com relação à realidade brasileira, nós temos duas perguntas e com relação à noção de pós-história mais duas. A Ivana Gomes e Silva diz: “o Brasil atual evocaria uma análise ainda mais aguda da análise a partir do pensamento de Flusser? A degradação política, o negacionismo da história e da ciência como política cultural?” E, nessa linha, eu também tenho o professor José Mauricio de Carvalho que pergunta: “em que sentido a noção de massa na cultura brasileira é diferente da noção de massa aplica por Ortega y Gasset a toda sociedade ocidental?” 

Rodrigo Duarte: A primeira pergunta é desconcertante sobre vários aspectos, porque, quando o Flusser afirma taxativamente que o brasileiro é essencialmente democrata etc e, como eu observei quando eu fiz minha exposição, a gente vê tantas manifestações, atualmente, contra a democracia. Isso sugere que as coisas não sejam tão simples como, talvez, naquela época, em 1972, o Flusser tenha apresentado. Naquela época, o contexto era o seguinte. A ditadura estava no seu momento de maior furor, opressor. Inclusive, uma parte da decisão do Flusser de sair do Brasil estava ligada a isso. Mas, mesmo ali naquele momento, ele via que, mesmo o Brasil sendo institucionalmente uma ditadura, um regime militar fechado etc, a vida das pessoas apontava para esse senso de democracia, solidariedade etc. Nós tivemos uma experiência democrática no Brasil, uma experiência, inclusive, de redistribuição de renda, avanços importantes contra esses impasses históricos da sociedade brasileira. Em algum momento, digamos, do auge da experiência que nós vivemos durante 10, 13, 14 anos eu cheguei a falar ‘puxa, o Flusser estava errado ou, pelo menos, aquilo que ele falou sobre o brasileiro era muito datado, porque o Brasil está conseguindo superar essa situação, por exemplo, de exclusão secular, milenar e, ao mesmo tempo, construindo uma sociedade em que as instituições funcionam, essa coisa toda’. Então ou o Flusser estava errado em relação ao prognóstico dele ou estava mais certo ainda do que a gente achava que ele estivesse no sentido dele estar atingindo um determinado estágio civilizatório que poderia, realmente, ser interessante para o resto do mundo. E, de fato, o Brasil assim como é hoje é considerado o maior pária de todos os países do universo. Naquela época, eu vivi muito isso participando de eventos no exterior, tinha um interesse que o Brasil despertava. Então, a situação atual, eu confesso que levanta muito mais dúvidas do que outros contextos que a gente já viveu, mas, mesmo assim, eu acho que tem alguns tópicos interessantes, por exemplo, em relação ao ataque às instituições que estamos experenciando desde o golpe de 2016 e, depois, as coisas não pararam de acontecer e estão acontecendo até hoje. E vocês podem observar que a área da cultura sempre foi uma área que se levantou contra todas essas questões. Então, eu acho que um jeito da gente entender, da gente atualizar esse ponto de vista do Flusser seria acompanhar ele na ideia de que a cultura brasileira possui uma pujança tão grande que ela poderia, inclusive, funcionar como um direcionamento para a vida dos brasileiros nesses momentos em que a política, a economia e a sociedade estão com impasses muito grandes. É muito interessante também nós termos esse dado interessante que é a afluência, por exemplo, da cultura negra, de uma cultura negra muito politizada, muito autoconsciente etc. Então, é quase que a realização ipsis litteris daquilo que o Flusser dizia de que uma coisa que era, digamos, mais inconsciente, mais espontânea na sociedade brasileira está, parcialmente, se tornando uma coisa, um posicionamento politico, mesmo uma atitude de resistência e tal. Um dos primeiros pensadores que influenciaram muito Flusser, que deslumbraram ele, foi realmente o Ortega y Gasset. Ainda na Republica Tcheca –  então Tchecoslováquia – muito antes de pensar que ele viria viver no Brasil, ele chegou até a aprender espanhol para ler Ortega y Gasset. Então, ele era muito fascinado com o pensamento de Ortega e, certamente, que a noção de massa de Ortega foi muito importante para a noção de massa em geral que ele tinha. Agora, voltando um pouco e até conectando com a resposta anterior, o Flusser sugeria que, se houvesse essa tomada de consciência na sociedade brasileira a partir dessa síntese cultural, a massa não teria mais aquele significado de massa amorfa, de massa a ser manipulada. Seria uma massa no sentido numérico, mas não no sentido de ser uma massa inconsciente, seria um número muito grande de pessoas movidas por generosidade, por solidariedade, por um senso democrático e por uma criatividade muito grande, o que Flusser sempre admirou na cultura brasileira.

A influência de Huizinga, o homo ludens de Flusser, as duas possibilidades de resolução de conflitos apresentadas pela pós-história – 29min31seg

Eugenio Lacerda: A Regina Teixeira pede para que o professor discorra “sobre sermos jogadores e não peças e falar sobre as duas estratégias propostas: ou elaborar novas estratégias ou derrubar o tabuleiro.” Ela pede que relacione isso à questão da formação superior se possível e cita uma passagem sua na qual você escreve que ‘a pós-história encerra muitos riscos de uma irreversível desumanização’. 

Rodrigo Duarte: Mais do que o Ortega y Gasset, Flusser era influenciado por Johan Huizinga, esse historiador e antropólogo holandês que escreveu essa obra Homo ludens. Ele era muito influenciado pelo Huizinga e ele radicalizou muito essa noção de jogo, de homo ludens, o homem como, essencialmente, jogador da antropologia do Huizinga. Ele radicalizou isso para a ideia de que, nesse cenário pós-histórico em que vivemos, não há alternativa a ser jogador, porque a pessoa que vive é jogador, alguém que joga quer queira quer não. Então, no livro Pós-história tem essa imagem que ele usa de alguém derrubar o tabuleiro do jogo. Ele diz que a única coisa que ele vai encontrar debaixo do tabuleiro que ele derrubou é o nada, porque toda produção de sentido está ligada a uma conexão ao jogo. Então, ele diz o seguinte: já que o jogo está aí e não há como deixar de jogá-lo, todas as pessoas que estão preocupadas com a inteligência – quer dizer todas as pessoas inteligentes que estão preocupadas com a democracia, com a emancipação da espécie humana etc – têm que se colocar como jogadores mais espertos do que o jogo automatizado que é proposto para a gente, que é um jogo cibernético. Os sistemas cibernéticos podem muita coisa, mas eles não são criativos, eles são mecânicos. Então, a ideia do homo ludens que o Flusser faz a partir do conceito forjado pelo Huizinga é essa ideia de pessoas que aprendem a jogar melhor do que aqueles que estão impondo o jogo para a gente. E, aqui, é interessante e até me dá a oportunidade de falar sobre um vínculo muito grande entre o conceito de pós-história e o livro de pós-história do Flusser e as suas reflexões sobre o Brasil. É que nessa criatividade da cultura afrobrasileira e na possibilidade uma síntese entre essa cultura de base e uma cultura mais erudita, mais elaborada etc o Flusser fala também que quem conseguisse essa síntese seria também um homo ludens. Então, quer dizer, o modelo do homo ludens que o Flusser propõe para o ser humano que quer superar os impasses da pós-história e os riscos que a pós-história encerra esse modelo do homo ludens é um modelo que tem origem exatamente nessa síntese cultural que o Flusser viu no Brasil, na cultura brasileira e tal. Inclusive, esse é um vínculo muito importante entre essas duas obras do Flusser que, a não ser por um ou outro ponto para quem ler com atenção, parecem que são desconectadas entre si. Para o Flusser, existe um lado perverso da pós-história que é esse perigo de nós todos seres humanos sermos enquadrados por esse sistema cibernético e deixarmos de sermos seres humanos para nos tornamos meramente funcionários, ou seja, seres que auxiliam esse sistema cibernético a continuar funcionando. Então, com isso a gente se desumaniza. Esse é o risco principal que a pós-história encerra, e todas as potencialidades técnicas da pós-história e, por outro lado também, as possibilidades humanas de superar os impasses da história – porque para o Flusser não é que a história seja boa e a pós-história ruim. Não. Tanto a história quanto a pós-história têm os seus impasses, os seus aspectos negativos e positivos. Então a história tem muitos lados perversos. Isso é uma influência, uma herança hegeliana do Flusser. A história pode ser vista sempre como um embate. A pós-história, em certo sentido, seria a resolução desses conflitos, desses embates. Só que a resolução poderia ser para o bem e para o mal. Seria para o mal se nós nos tornássemos robôs, se nós nos tornamos primeiro funcionais e, depois, funcionários tão perfeitos que a gente se tornaria robô. Então, com isso a humanidade chegaria realmente não apenas a história, chegaria ao seu fim, mas a humanidade também chegaria ao seu fim. Mas existem possibilidades de emancipação humana na pós-história que seria a dos os seres humanos atentos para essa questão usarem todas as possibilidades tecnológicas e de conhecimento que esse cenário pós-histórico oferece para exatamente superar o perigo da nossa transformação em funcionários e, principalmente, depois, em robôs. Então, a pós-história oferece riscos e também oferece possibilidades de colocar a humanidade em um novo patamar de existência, de convivência, de solidariedade etc.