Nesta semana, o Guia para novas leituras traz um roteiro de acompanhamento da segunda parte da aula Formação de formadores: uma perspectiva nietzschiana, ministrada pelo professor Oswaldo Giacoia Junior, na sala online da Cidade Futura, no dia 03 de julho.

O Guia da primeira parte da aula pode ser conferido aqui.

Aforismo 267, Humano, demasiado humano II – 00min00seg

Giacoia Junior: Eu até agora desenvolvi estes aspectos vinculados ao pensamento do jovem Nietzsche já fazendo uma certa incursão pelo Nietzsche que rompe com Schopenhauer e enceta o caminho da sua própria filosofia a partir da obra Humano, demasiado humano. Entretanto, acho que esse ideal de educador, esta ideia reguladora da formação permanece no pensamento de Nietzsche até o seu final. Um texto que eu acho importantíssimo para o pensamento de Nietzsche sobre o educador e a formação de educadores é, justamente, aquele que se encontra em Humano, demasiado humano II, o aforismo 267, em que Nietzsche vai dizer:

“Não há educadores. — Como pensador, só se deveria falar de educação por si próprio. A educação da juventude por outros ou é um experimento realizado em alguém desconhecido, incognoscível, ou uma nivelação por princípio, para adequar o novo ser, seja qual for, aos hábitos e costumes vigentes: nos dois casos, portanto, algo indigno do pensador, obra de pais e professores, que um desses audazes honestos chamou de nos ennemis naturels [nossos inimigos naturais].” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano II. O Andarilho e sua Sombra. Aforismo nº 267. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. 279) 

Então, vejam aqui a importância disto para nós que somos nós mesmos educadores e professores: a conscitação a não permitir que nos transformemos em inimigos naturais da tarefa de formação, da tarefa de educação.

“Um dia, quando há muito tempo estamos educados, segundo a opinião do mundo, descobrimos a nós mesmos: começa então a tarefa do pensador, é tempo de solicitar-lhe ajuda — não como um educador, mas como um auto-educado que tem experiência”. (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano II. O Andarilho e sua Sombra. Aforismo nº 267. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. 279) 

Ora, isto, a meu ver, é muito característico do pensamento nietzschiano, a saber: para, efetivamente, educar, formar, é preciso que alguém seja ele próprio formado. É preciso que alguém tenha se colocado a caminho de si mesmo, a caminho do desenvolvimento da sua própria capacidade de julgar, pensar por si, desenvolver o seu discernimento, desenvolver a sua sensibilidade, desenvolver os seus próprios talentos, integrá-los nesse conjunto harmônico que é a estrutura de uma personalidade autêntica segundo Nietzsche. 

A barbárie civilizada – 4min02seg

Giacoia Junior: Eu queria afirmar aqui que esta meta da formação e da educação para  a cultura enquanto um elemento constitutivo e uma parte fundamental da crítica nietzschiana da Modernidade tem, hoje, uma atualidade e uma relevância que, na minha opinião, mal podem ser exageradas. Eu acredito inclusive, e pretendo mostrar isso aqui para vocês, que esta vertente do pensamento de Nietzsche – que eu gostaria de subsumir sob um conceito chamado barbárie civilizada – é tão importante para nós hoje que nós, realmente, deveríamos empregar o nosso tempo para refletir a respeito, sobretudo nós que estamos empenhados em uma prática social como aquela da educação e da formação. Para mostrar, a meu ver, apenas como indicativo a persistência destes insights fundamentais de Nietzsche sobre educação e educadores ao longo de todo o seu pensamento, eu indico alguns textos como, por exemplo, o aforismo 21 do primeiro livro de A Gaia Ciência, tomaria a liberdade de indicar passagens selecionadas sobre a bildung, sobre a formação em Assim falou Zaratustra, em Além do bem e do mal, em Crepúsculo dos ídolos, mas também ao longo de todos os textos inéditos, não publicados por Nietzsche, desde 1885 até o final de sua vida lúcida. Recorrentemente, esse tema reaparece e este conceito ‘barbárie civilizada’ é alguma coisa que me parece permanecer como um marco, uma diretriz no pensamento de Nietzsche. Ele já está presente lá no início, no seu período de magistério na Basileia. Este é um conceito que Nietzsche compartilha com seu colega lá da Basileia, Jakob Burckhardt. O que que é uma barbárie civilizada? De início, nós temos uma impressão de que há uma oposição entre barbárie e civilização. E, no entanto, Nietzsche e Burckhardt concebem a Modernidade, o nosso tempo, como um tempo de barbárie – precisamente porque nele se opera uma confusão entre civilização e cultura, ou seja, entre o conjunto dos meios, dos recursos e dos dispositivos, inclusive técnicos, para a manutenção e reprodução da vida material, conjunto de bens, riquezas, facilidades, comodidades, segurança, luxo etc – ou seja, tudo aquilo que faz parte da civilização, do processo civilizatório com a cultura. O que é cultura? Cultura significa, justamente, o cultivo daqueles pensadores espirituais da humanidade, a saber: cultura como a esfera dos valores superiores que se desdobram na arte, na ciência, na filosofia, na religião etc. A esfera superior do espírito humano. Justamente, o cultivo para estes valores é a tarefa da cultura. A cultura, para Nietzsche, significa, assim como significava para Burckhardt também, a criação de um estilo que dá uma determinada configuração, que plasma um determinado caráter como, por exemplo, a cultura grega ou a cultura romana. Nesses dois casos, nós temos paradigmas de como o mesmo traço, esta unidade, impregna tanto o estado grego quanto a sociedade grega, quanto a filosofia grega, quanto a cultura grega ou romana – por exemplo, o Direito romano – como é isto que se diferencia dos processos que mantém, reproduzem a vida material. E que a confusão entre estes dois planos transforma a civilização – por mais rica, refinada e sofisticada que ela seja – em barbárie, porque ela despreza o cultivo deste outros elementos que estão ligados aos pendores espirituais de uma personalidade autêntica. Ora, como se faz isso? Precisamente atrelando e adaptando a formação às exigências heterônomas, aquelas da cultura, ou seja, a exigências próprias do processo civilizatório, portanto, exigências dos dispositivos de produção e reprodução da vida material, a saber: as exigência, por exemplo, do mercado, as exigências do modo de produção naquele momento do modo de produção capitalista tal como se configurava nas sociedades emergentes da revolução industrial.

A antipedagogia para Nietzsche, a formação adaptada às exigências de instrumentalização e subordinação, o sistema de educação que funcionaliza o indivíduo – 10min28seg

Giacoia Junior: E, para isso, eu vou ler um texto que separei para a aula e que eu considero verdadeiramente exemplar. De acordo com Nietzsche:

“o anseio mais obstinado da civilização moderna consiste em fazer o homem tanto quanto possível utilizável, e aproximá-lo, tanto quanto possível, de uma máquina infalível” (Nietzsche, F. Fragmento Póstumo do outono de 1887, nr. 10 [11]. In: KSA. Vol. 12, op. cit. p. 459s)

Duas características portanto. A característica da instrumentalização e a característica da subordinação aos critérios de utilidade, maximização de rendimento, eficácia, diligência, prestabilidade, utilidade. 

“Para essa finalidade, ele tem que ser equipado com virtudes de máquina (- ele tem que aprender a sentir os estados nos quais trabalha de maneira maquinalmente utilizável como os de mais elevado valor: para tanto é necessário que os outros [estados, OGJ.] sejam tornados tanto quanto possível penosos para ele, tanto quanto possível perigosos e suspeitos…).” (Nietzsche, F. Fragmento Póstumo do outono de 1887, nr. 10 [11]. In: KSA. Vol. 12, op. cit. p. 459s)

Vejam, aqui, nós temos o exemplo claro daquilo que seria a antipedagogia, a antiformação para Nietzsche, a saber: a dissipação dos pendores, a dissipação das capacidades de habilitação de alguém em proveito de um ou de um único aspecto da sua formação – justamente daqueles estados ou daquelas habilidades que tornam possível o seu funcionamento maquinal, a sua funcionalização, a sua transformação em peça útil de uma engrenagem e fazendo com que todas as suas outras possibilidades, suas outras potencialidades sejam objeto de desprezo, sejam tornados penosos, perigosos e suspeitos. 

“Aprender algo que não interessa; reconhecer justamente aí seu ‘dever’, nessa atividade ‘objetiva’; aprender a avaliar separados um do outro o prazer e o dever – essa é a inseparável tarefa e realização do sistema de ensino superior.” (Nietzsche, F. Fragmento Póstumo do outono de 1887, nr. 10 [11]. In: KSA. Vol. 12, op. cit. p. 459s)

O ponto que me parece fundamental aqui é a transformação do ensino-aprendizado em uma tarefa penosa, em algo que é da ordem do dever, em dissociar, separar, opor prazer e dever. Essa é a inseparável tarefa e realização do sistemas de ensino superior. Vejam, Nietzsche até agora –  e essa é uma contribuição que eu gostaria de dar aos colegas e a mim mesmo – faz uma reflexão na qual inclui a si próprio, por isso filólogo, e ele próprio era filólogo de profissão:

“Porisso, o filólogo foi até agora o educador em si: porque sua atividade fornece o modelo de uma monotonia da atividade que chega ao grandioso: sob sua bandeira, o discípulo aprende a ‘trabalhar como um boi’: condição prévia para uma aptidão inicial para o cumprimento maquinal do dever (como funcionário do Estado, espôso, aprendiz de burocrata, leitor de jornais, soldado).” (Nietzsche, F. Fragmento Póstumo do outono de 1887, nr. 10 [11]. In: KSA. Vol. 12, op. cit. p. 459s)

Aqui então nós vemos essa especificação a que Nietzsche se refere. O sistema de ensino superior visa à formação para o desempenho eficaz de um determinado papel social, ou seja, para o desempenho de uma função. O sistema de educação é um sistema que funcionaliza ao invés de promover a verdadeira personalidade, o cultivo dos próprios pendores. 

“Ainda mais que qualquer outra, tal existência necessita, talvez, de uma justificação filosófica e uma transfiguração: por parte de alguma infalível instância, os sentimentos agradáveis têm de ser, em geral, desvalorizados como sendo de nível inferior; o ‘dever em si’ talvez até o pathos da reverência face a tudo o que é desagradável – e essa exigência falando imperativamente como além de toda utilidade, divertimento, finalidade … A forma da existência maquinal como a suprema, a mais digna de honra, idolatrando a si mesma (- tipo Kant como fanático do conceito formal ‘tu deves’).” (Nietzsche, F. Fragmento Póstumo do outono de 1887, nr. 10 [11]. In: KSA. Vol. 12, op. cit. p. 459s)

Desvirtuamento dos fins autênticos da cultura e da educação na Modernidade, o sacrifício da natureza autêntica no processo de educação, Kant e o conceito formal “tu deves” – 17min10seg

Algumas palavras a respeito deste texto. Trata-se de um texto que foi escrito por Nietzsche no outono de 1887 e, portanto, faz parte do último período da sua produção filosófica. Um texto que não foi utilizado por ele para fins de publicação. Esse texto permaneceu inédito como parte do seu espólio filosófico, mas os elementos que estão presentes nesse texto migraram sob formas diferentes para vários outros textos publicados por Nietzsche nesse período. Seja, por exemplo, Crepúsculo dos ídolos ou mesmo textos que são anteriores a 1887 onde essas ideias já estavam presentes como Além do bem e do mal e Genealogia da moral. Nós vemos aqui que, do ponto de vista nietzschiano, acontece na modernidade cultural um desvirtuamento dos fins autênticos da cultura e dos fins autênticos da atividade e da prática social da educação. A educação não prepara mais para o cultivo de si, a educação prepara para o desenvolvimento de habilidades maquínicas, a educação prepara para o sucesso, para o êxito no desempenho de papéis sociais com vistas à consecução, com vistas ao alcance, à realização de um fim último que é a maximização da utilidade social. Ou seja, a educação visa a produção de indivíduos que sejam capazes de desacoplar inteiramente o desempenho das suas aptidões e das suas capacitações profissionais de qualquer tipo de realização que seja uma realização efetivamente gratificadora no sentido do desempenho prazeroso de uma determinada atividade. No fundo, e este é o ponto nodal, nevrálgico deste inédito que eu trouxe para o nosso encontro de hoje; a educação tal como praticada por nós na modernidade cultural conserva, ainda que de maneira muito disfarçada, tem os traços de um elemento sacrificial, a saber: aquilo que corresponde ao desempenho da nossa atividade profissional. Aquilo para o que nós fomos efetivamente formados e educados deve ser desenvolvido e desempenhado como sendo um dever, como alguma coisa que é, de certa maneira, transfigurada filosoficamente, que é transfigurada sob a forma de uma roupagem filosófica que carrega consigo todos os elementos próprios da sacralização religiosa. É isto que Nietzsche quer insinuar quando chama Kant aqui de um fanático do conceito formal “ tu deves”. Ou seja, a formação, a educação, a preparação para o sucesso social, para o êxito social, para o desempenho eficaz das nossas atividades profissionais tem a ver com o sacrifício da nossa autêntica, verdadeira, própria natureza, do nosso si mesmo; e ela é uma tarefa, em última instância, de adaptação. Ela é uma tarefa de ajustamento às exigências da sociedade na qual nós nos inserimos, exigências que vêm de códigos preferências, que são da ordem, por exemplo, da economia ou do poder, mas que, de certa maneira, nos mobilizar como vítimas sacrificiais para o desempenho eficaz desses papéis que podem ser, tal como a enumeração que Nietzsche diz aqui, “o burocrata, o esposo, o funcionário de Estado, o operário, o banqueiro”, enfim, todas estas figuras que integram o sistema global da sociedade para as quais, com o sacrifício e o empenho de nós mesmos, a educação nos prepara. 

Escravidão mental, a critica nietzschiana à abdicação da tarefa formal da paideia e Nietzsche para Adorno e Horkheimer em ‘A dialética do esclarecimento’ – 22min50seg

Giacoia Junior: Ou seja, a educação – que deveria ser tarefa de formação e cultivo – acaba por se realizar, em uma sociedade como a nossa, como desvio precisamente desta finalidade, destes valores. A educação e a nossa paideia nos desvia justamente deste cultivo dos nossos talentos e o sacrifica em proveito de uma funcionalidade, uma adaptabilidade que é própria do instrumento, a saber: esse desenvolvimento de atividades maquinais é, precisamente, aquilo que nos transforma em instrumento, em ferramenta, em algo que nos atrela às exigências maquínicas e nos adapta a um sistema global de interesses e rendimentos. Por isso, para concluir, de minha parte, eu gostaria de dizer, provocativamente, a crítica de Nietzsche à tarefa da educação, tal como concebida em nossas sociedades, poderia se resumir em duas palavras: a barbárie civilizada, que leva ao sacrifício das nossas potencialidades em proveito do desenvolvimento de habilidades maquínicas. Esta barbárie civilizada é algo muito próximo da escravidão mental e, portanto, tudo se passa como se o desenvolvimento do nosso sistema de ensino superior fosse a realização, precisamente, do contrário daquilo que as luzes e o esclarecimento haviam apregoado: ao invés de emancipação e do desenvolvimento da capacidade de pensar por si com autonomia, liberdade, cultivo da sensibilidade do intelecto, a educação leva, precisamente, a esta adaptabilidade, a esta abdicação de si, a este atrelamento a fins heterônimos e, nesse sentido, a uma espécie de escravidão. Ou seja, a educação mostra como em nós o esclarecimento se realiza como o contrário de si mesmo. Vou concluir para mostrar como isso é atual lembrando aquilo que os filósofos Adorno e Horkheimer escreveram a propósito de Nietzsche em seu texto A dialética do esclarecimento. Adorno e Horkheimer escreveram um excurso dedicado a Friedrich Nietzsche e ao Marques de Sade com o objetivo de mostrar como esses filósofos, que na verdade são notoriamente conhecidos como inimigos do esclarecimento, são aqueles que são a expressão da verdade do esclarecimento. Cito uma passagem, agora não de Nietzsche, mas de Adorno e Horkheimer: 

“Ao contrário de seus apologetas, os escritores sombrios da burguesia (neste caso, nominalmente, os escritores são Nietzsche e Sade) não tentaram distorcer as consequências dos esclarecimento recorrendo a doutrinas humanizadoras. Ou seja, não tentaram a educoração e a transformação das exigências próprias de uma sociedade mercantil disfarçadas sob a roupagem dos conceitos filosóficos ou sob a roupagem de categorias que são, em última instância, de proveniência religiosa como, por exemplo, a sacralidade do dever. Não. Esses autores sombrios não tentaram esse tipo de educoração, de distorcer as consequências do esclarecimento recorrendo a doutrinas humanizadoras. Eles não pretenderam que a razão formalista – vejam o texto que eu citei de Nietzsche Kant o fanático do conceito formal –  tivesse uma ligação mais intima com a moral do que com a imoralidade, enquanto os escritores luminosos protegiam pela negação a união indissolúvel da razão e do crime, da sociedade burguesa e da dominação, aqueles (ou seja Nietzsche e Sade) proferiram brutalmente a verdade chocante”

Ora, essa expressão brutal da verdade chocante, Kant como o fanático do conceito formal “tu deves” é, justamente, uma maneira de mostrar também de modo chocante e brutal como a educação, tal como praticada e realizada na modernidade cultural, promove a escravidão mental. Isto é justamente a crítica mais feroz de Nietzsche ao modo como a verdadeira paideia abdica, se autodemite da sua tarefa fundamental, qual seja: a de estabelecer os fins e os valores supremos em vista dos quais a tarefa pedagógica de formação e de educação deve ser praticada, a saber: a autodemissão do processo superior de educação, a autodemissão da reflexão sobre o sistema de ensino-aprendizado favorece o desenvolvimento de uma personalidade que tem a aparência de docilidade, de utilidade, de adaptabilidade, mas que prepara as condições que são, talvez, as mais propícias para o desenvolvimento de uma mentalidade autoritária. A dialética do esclarecimento de Adorno e Horkheimer mostram como, justamente, este tipo de formação leva a uma mentalidade autoritária com tendências totalitárias bastante próximas daquela que se aproximam do nazifascismo. Bom, acho que, com isso, eu dou algumas indicações gerais e muito sintéticas do que seria uma filosofia da educação em Nietzsche ou de como pensar com Nietzsche a formação de formadores.

A sacralização da filosofia nietzschiana, o niilismo das redes sociais e o vácuo de diretrizes para o pensamento – 31min55seg

Eugenio Lacerda: Professor, o Paulo Lucas da Silva pergunta: hoje tenho me deparado  com neoestudiosos de Nietzsche e percebo certa sacralização do mesmo a partir de partes e pensamentos isolados do autor. Minha pergunta é: até que ponto Nietzsche pode ser tomado ou acusado de inspirador dos pós-modernos? Até que ponto o pensamento de Nietzsche pode estar contribuindo para o relativismo tanto epistemológico quanto moral e pedagógico? Engatando a segunda pergunta, o Alberto Heller pergunta: em que medida o niilismo “nietzschiano” poderia interferir negativamente nas dinâmicas educacionais (por exemplo, quando não apenas se contesta os valores vigentes, mas se passa não mais a confirmar em qualquer valor)?

Giacoia Junior: Essas duas perguntas mostram, digamos assim, a fecundidade do campo pelo qual nós transitamos. Para ser honesto, eu diria que não sou capaz de responder a essas perguntas. Eu sou apenas capaz de oferecer um conjunto de elementos, de subsídios para que as pessoas que formularam essas perguntas e para nós todos que estamos empenhados nesse diálogo podermos pensar um pouco a respeito da magnitude dos problemas que estão envolvidos nessas questões. Eu vou começar com aquela que me parece mais fácil, mas, veja, é mera aparência, porque, no fundo, ela é tão complexa e tão problemática quanto a outra. Bom, sacralização. O que é que significa sacralizar alguma coisa? É precisamente o que não deve ocorrer com a filosofia e o pensamento de Nietzsche. Se nós pegarmos um dos textos mais paroxísticos de Nietzsche, que é, justamente, o texto de sua autobiografia, de sua autoapresentação: Ecce homo… eu insisto, vejam, o próprio título é paródico, É uma referência aos evangelhos acrescentado de um subtítulo: como alguém se torna o que é. Que é, na verdade, uma reminiscência de Píndaro. Então, vejam, só isso já bastaria para nós tomarmos um pé atrás em relação a essa sacralização. E, nesse texto, Nietzsche diz ‘por favor, eu não sou nenhum fundador de religião. Não sacralizem os meus textos. Eu prefiro antes ser bufão’. Ou seja, um palhaço. É preferível ser um palhaço do que alguém que desenvolva esta aptidão a ser um espantalho moral. Quer dizer, justamente, não sacralizar o pensamento de Nietzsche, mas torná-lo objeto de uma reflexão e de uma ruminação própria que, digamos assim, não seja outra coisa do que isso que ele indica como tarefa da educação: um caminho para si mesmo. Que seja capaz de fazer com nós sejamos capazes de pensar com ele, eventualmente, inclusive, contra ele. Talvez, na maioria das vezes, até contra ele, necessariamente contra ele para saber se nós seríamos realmente capazes de nos colocar à altura das exigências desse pensamento. Muito mais importante, portanto, do que saber se ele inspira ou não inspira modernos ou pós-modernos, seria saber o que está implicado, quais são as exigências que estão postas por Nietzsche nos seus textos como sendo exigências que comprometem o seu leitor. Eu acho que, antes de tudo, a gente deveria se perguntar o que significa ler Nietzsche até o fim, o que significa medir-se com o pensamento de Nietzsche. Eu acho que isto é realmente algo muito próximo daquilo que Nietzsche chama de filosofia e daquilo que ele considera como tarefa da paideia, como tarefa de formação e não se trata de colocar alguém como epígono, como discípulo, como seguidor, mas trata-se de preparar alguém para ser capaz de pensar por si. Então, acho que este ponto, digamos assim, a elisão de toda tentativa de sacralização é a exigência, a meu ver, mais genuína do pensamento nietzschiano. Não há tributo que se possa fazer para o pensamento de Nietzsche seria que alguém se colocasse na posição de discípulo ou de seguidor.

Eugenio Lacerda: Esse é um alerta muito grande para a época atual na qual nós vemos nas redes legiões de seguidores de nada. A própria ideia de seguir algo, de seguir alguém… as pessoas nem refletem sobre o que estão seguindo, mas são legiões. 

Giacoia Junior: Precisamente isso que você falou, Eugenio, é o niilismo. É uma expressão, talvez, mais evidente do niilismo, deste vazio, deste nada que nos faz, em última instância, seguir qualquer coisa sem saber ao que é que isso efetivamente nos conduz, sem saber efetivamente o que isso tem de substância. Eu acho que o pensamento de Nietzsche sobre o niilismo não tem absolutamente nada a ver com pleito a favor do relativismo ético. Tem a ver com uma descrição, a meu ver, uma das mais pertinentes da nossa condição de vida, a saber: que nó vivemos, digamos assim, no vácuo, na ausência de diretrizes de orientação para o nosso pensamento, para a nossa ação.

O estatuto do sujeito em Nietzsche, a importância da modéstia do educador e de uma relação simétrica com o educando – 41min59seg

Eugenio Lacerda: As perguntas a seguir, professor, têm a ver com o universo do educador. A Lucia pergunta: no contexto da educação ao tomar Nietzsche como referência enfrentamos a dificuldade de como compreender o sujeito. Afinal ele é feito de muitas “almas”, então parece que precisamos diferenciar o ich e selbst para entender a tarefa da formação. você poderia nos ajudar a pensar essa diferença para compreender esse caminho ao si próprio? Qual é o estatuto do sujeito em Nietzsche? A Anna e Augusto: de que modo o cuidado e cultivo por parte do educador promove o encaminhamento do educando a si mesmo? Para Nietzsche, o educador ocuparia uma posição privilegiada, em relação ao aluno, para reconhecer e indicar o caminho? E, por fim, o Jéferson pergunta: como podemos relacionar o pensamento de Nietzsche com a atual realidade da educação brasileira, em que me parece que enfatiza a técnica, sobretudo?

Giacoia Junior: Você me coloca na hercúlea tarefa de tentar oferecer algum tipo de resposta a essas questões tão importantes. Eu vou tentar, mais uma vez, fazer o que está em meu poder para resumir elementos que podem oferecer algum tipo de contribuição para uma reflexão sobre essas questões. Em primeiro, lugar eu agradeço muito essa indicação, a diferença entre o ego (ich), o eu, e o si próprio (selbst). Eu acho que isso é, realmente, fundamental. A questão do estatuto do sujeito em Nietzsche eu acho que é uma das questões magnas do pensamento nietzschiano. Muito rapidamente, eu diria que Nietzsche diferencia com toda clareza o eu, o ego e o selbest – si próprio. Este é um assunto que eu já tratei inúmeras vezes em textos que escrevi, eu tomo a liberdade de remeter a pessoa que me perguntou aos textos que publiquei a esse respeito por economia de tempo. Mas, apenas para fazer justiça a essa interessantíssima questão, eu acho que a reflexão de Nietzsche sobre o ego e o si próprio é um dos caminhos que ele abre para o pensamento, não apenas na filosofia, mas também para ciências posteriores. Eu acho que, por exemplo, todo o trabalho que a psicanálise vai fazer mais tarde sobre esta questão da dissociação entre a consciência e o psíquico em geral e a diferença entre o si próprio e o eu já está, de algum modo, prefigurada no pensamento de Nietzsche e, sobretudo, esta ideia de que o sujeito em Nietzsche é, antes de tudo, um processo de subjetivação, um longo processo de subjetivação que passa necessariamente pela tarefa de educação, de formação para a qual a presença do corpo é absolutamente central. Um corpo que nós somos, não um corpo que nós temos e, portanto, está aqui, absolutamente fora de ação, a divisão substancial, a oposição entre corpo e alma. Todas essas questões que revolucionam inteiramente a história da filosofia ocidental estão postas sob esta rubrica: o estatuto do sujeito, eu, si próprio no pensamento de Nietzsche. Em relação ao cuidado e o cultivo, precisamente Nietzsche desenvolve todo o seu pensamento não apenas em torno dessa preocupação com aproximar-se de si, com cuidar de si, com o trato consigo mesmo, com um empenho intransigente, eu diria, radical com a autenticidade e isto leva o pensador Nietzsche a, digamos assim, privilegiar elementos que, em geral, na nossa cultura, não são valorizados o suficiente. Por exemplo, a questão das nossas formas de vida, que vão desde as nossas relações com o meio ambiente até os nossos modos de alimentação, as nossas maneiras de nos relacionar com os outros. O cuidado e o cultivo de si em Nietzsche não significa autismo, concentração nomádica, digamos, solicista consigo mesmo, mas abre-se necessariamente para uma relação com o outro e, no caso da pergunta que me foi formulada: educador e educando estão colocados em uma relação assimétrica de modo que o educador está sempre necessariamente acima do educando etc? Absolutamente não, porque, justamente, para Nietzsche esta relação de dependência, este colocar-se sob a autoridade de alguém é isso que deve ser rompido precisamente pela tarefa de formação. O caminho que leva a si mesmo passa, como nós vimos nos textos já de juventude – no próprio texto de Schopenhauer como educador – o caminho que leva a si mesmo não é o da interiorização, do mergulho reflexivo na direção da própria interioridade, mas a indicação é dada precisamente fora, na exterioridade pelos objetos que nós amamos, pela qualidade dos nossos encontros, por aquilo que nós buscamos e aquilo que nós evitamos, o que um mestre deve fazer é, justamente, remover a erva daninha como dizia Nietzsche lá no texto sobre Schopenhauer educador, o que ele deve fazer é procurar criar aquelas condições nas quais seja capaz de emergir aquilo que é autenticamente próprio, singular do seu educando. Isto significa cuidado. Cuidado significa, para nós educadores, a prodigiosa força da modéstia e da abnegação, renunciar ao delírio de onipotência de tentar reduzir alguém aquilo que nós acreditamos que deva ser o correto e o certo, tentar evitar que o reconhecimento seja apenas a equiparação do outro aos nossos próprios conjuntos de valores. Formar, educar significa justamente abrir o espaço da diferença, fazer com que o outro enquanto outro não seja reduzido aquilo que é o conjunto das nossas expectativas, mas seja capaz de fazer que aflore aquilo que é próprio da sua singularidade mais verdadeira e mais própria. Para isso, é preciso ser muito forte, porque, justamente, a potência do educador neste sentido é diretamente proporcional a capacidade da sua renúncia ao seu desejo tirânico de dominação. Relativamente à adaptabilidade disso à realidade brasileira, bom eu acho que isso fala por si. Eu acho que nós estamos colocados, infelizmente, em uma sociedade em que as condições para este tipo de formação, digamos, ainda não estão postas. E, talvez, o nosso principal compromisso seja na direção da realização dessas condições. Uma tarefa não somente intelectual, filosófica, pedagógica, mas sobretudo política.