A formação de formadores desde uma perspectiva nietzschiana foi assunto da aula ministrada pelo professor Oswaldo Giacoia Junior na sala online da Cidade Futura, no dia 03 de julho. Nesta semana, o Guia para novas leituras traz um roteiro para acompanhamento da primeira parte dessa exposição.

No roteiro abaixo, estão destacados os principais tópicos da aula e as perguntas pontuadas pelo mediador Eugenio Lacerda e o professor José Paulo Teixeira.

O contexto histórico no qual a reflexão de Nietzsche se desenvolve – 1m25s

Giacoia Junior: Se podemos falar em uma filosofia da educação em Nietzsche que abrangeria o tema da formação de formadores, de educadores; esta rubrica encontraria sua inscrição própria no interior do pensamento de Nietzsche no âmbito da sua filosofia da cultura. Eu considero que Nietzsche é um filósofo da cultura, embora a maioria dos seus intérpretes o caracterize como um crítico da moral, crítico da religião, crítico da metafísica. A mim me parece que o tema da cultura é um tema absolutamente nuclear no pensamento de Nietzsche. E, no interior da sua filosofia da cultura, desdobra-se uma crítica da modernidade cultural como um momento decisivo do seu pensamento, de toda a estruturação do seu pensamento. No centro pulsante dessa crítica da modernidade cultural, encontra-se a questão da formação, a questão da educação, e, sobretudo, a questão da formação dos educadores. Penso que esse é um tema que atravessa o pensamento de Nietzsche de ponta a ponta em um dos seus primeiros escritos, desde o período em que ele ocupou a cátedra de filologia clássica da Universidade da Basileia até o final da sua vida intelectual lúcida. Eu pretendo, então, apresentar hoje aqui para vocês um esboço da maneira como Nietzsche se encarregou dessa questão. Antes de ingressar propriamente nos textos que servirão de base à minha comunicação, eu gostaria de fazer algumas observações preliminares sobre o momento histórico em que essa reflexão de Nietzsche se desenvolve. Trata-se de um momento importante na história da Europa, na história do Ocidente em geral e, particularmente, na história da Alemanha. Esta reflexão de Nietzsche se inicia por volta de 1870. Eu digo por volta, porque ela já tinha se iniciado antes, mas expressa-se sobre a forma de publicações em torno de 1870, em um momento contemporâneo da Guerra Franco-Prussiana, em que se forma, então, a unidade da nação alemã, unidade política da nação alemã sob a referência da Prússia. Portanto, um momento de profunda transformação social, política e cultural da Alemanha, mas também da Europa, porque, justamente, este momento final do século XIX é um momento de reorganização e reconfiguração da sociedade europeia emergente da Revolução Industrial. Um momento de reestruturação da sociedade europeia respondendo às urgências, às demandas e à exigência do capitalismo industrial e, portanto, de uma sociedade que se estrutura, se organiza, se desenvolve em torno da produção de mercadorias. É justamente esse o background contextual em que se desenvolve a crítica de Nietzsche à modernidade cultural. A crítica ao modo como se processa a educação na sociedade alemã e na sociedade europeia de seu tempo terá como pano de fundo, justamente, este cenário. E é aí então que Nietzsche vai se ocupar com uma reflexão sobre como se configura a sociedade a partir destas exigências ligadas à produção, à distribuição, à circulação e ao consumo de mercadorias –  reflexão de um tipo de formação que visa, sobretudo, preparar, adaptar e ajustar as pessoas aos dispositivos e aparelhos da produção industrial mercantil capitalista e desenvolver habilidade para tanto. É justamente aqui que eu gostaria de inserir o marco inicial da nossa reflexão. 

Nietzsche filólogo, a preocupação com a cultura como pano de fundo, a tarefa do educador e o termo bildung, paideia  como erziehen – 5m58s

Giacoia Junior: Então, tendo em vista este pano de fundo, eu começo dizendo que Nietzsche era filólogo e por filólogo aqui entendemos aquele que se ocupa com o estudo das culturas e das civilizações antigas, sobretudo a partir da análise crítica de textos, em particular de textos literários. Nietzsche foi um filólogo nesse sentido e, muito mais do que neste sentido, também um filólogo que de maneira revolucionária para o seu tempo não se limitava a praticar filologia a partir da análise crítica dos grandes textos literários mais elevados, mas também mobilizava para sua análise das culturas antigas material etnológico folclórico, material proveniente de crenças populares, de ritos populares, de práticas religiosas – mais ou menos como faz hoje a nossa etnografia e a nossa antropologia cultural. Portanto, a preocupação de Nietzsche educador, do Nietzsche enquanto professor e enquanto um intelectual dedicado à filologia… a preocupação do Nietzsche com a educação e a formação já possui de saída este diferencial e esta característica: ou seja, a preocupação nuclear é a preocupação com a cultura, com a formação, e com a promoção cultural no sentido mais genuíno daquilo que na antiguidade clássica os gregos entendiam como paideia – paideia enquanto formação, enquanto atividade de plasmar, de moldar, de configurar, de dar forma, de cultivar, de promover e elevar. São exatamente estas as acepções que Nietzsche associa à tarefa da educação enquanto tarefa de formação e, para tanto, faz uso de um termo semanticamente muito forte, tanto na sua própria obra quanto na cultura alemã em geral, que é o termo bildung. Que é um substantivo que se refere ou que se vincula ao verbo que por sua vez indica formar, conformar, dar uma forma configurar. É isto, para Nietzsche, a tarefa da educação: formar, conformar, cultivar, promover, elevar, configurar, plasmar. É neste campo semântico da bildung, que Nietzsche inscreve sua reflexão sobre a educação, sobre a relação ensino-aprendizagem. Este sentido de paideia ressoa no sentido de Nietzsche e, não por acaso, ele vem também muito fortemente impregnado no termo que Nietzsche – de modo quase exclusivo senão totalmente exclusivo – emprega para se referir à educação: erziehung. Este é um substantivo ligado ao verbo erziehen, com associação a herausziehen (que significa puxar, tirar extrair levar para fora, retirar) mas também a partir do acréscimo de prefixos que modificam em parte a significação do radical ziehen, que significa também elevar, promover, cultivar e pode ser associado – como o faz o tradutor de Nietzsche Rubens Rodrigues Torres Filho – ao latim educere, que tem esse mesmo sentido de levar para fora, de educar, de elevar. Educere alternando como educare e a forma ducere como conduzir, no sentido de orientar, puxar, puxar para si, elevar, promover formar. É justamente este campo de significação que Nietzsche mobiliza na sua reflexão sobre educação e isso vem a luz de maneira muito clara nos textos aos quais vou me referir aqui, tanto nas suas conferências sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino quanto no texto, a meu ver, magno deste momento da produção nietzschiana, ou seja, do seu momento inicial de produção filosófica ainda enquanto professor de filosofia na Basileia, que é o texto Schopenhauer como educador, Schopenhauer como erziehen. Ora, o grande diferencial do pensamento de Nietzsche é que esse entendimento de paideia  como erziehen, como formação, como plasmação, como elevação, como cultivo, já vincula o tema da educação e da formação ao tema da cultura e da civilização. E Nietzsche tem um pensamento que diferencia de modo conceitual o que é cultura e o que é civilização, como nós vamos ver um pouco mais adiante. 

A questão de onde parte a reflexão nietzschiana sobre educação, o cultivo de um genuíno si próprio como meta fundamental da atividade de formação – 13m09s

Giacoia Junior: E neste contexto de relação entre educação, civilização e cultura – isto é, como tarefas da bildung, da formação – impõe se para Nietzsche enquanto filólogo e enquanto filósofo, desde o início, a questão central, a questão nuclear, a questão chave: formar para que? Educar para que? A que valores e a que metas está vinculada a tarefa da formação? Que, no melhor sentido da paideia, a formação se realiza e se desenvolve com vistas ao cultivo de determinadas virtudes, virtudes nas quais estão incorporados valores, metas, alvos culturais. Portanto, a pergunta da qual parte a reflexão de Nietzsche sobre a educação, já no momento inicial do seu pensamento, é a pergunta por excelência: a que fins culturais está voltada a tarefa pedagógica de formação por parte dos educadores? Quais são os fins superiores da cultura aos quais a educação deve se vincular? Esta é a pergunta chave que Nietzsche se coloca e que ele se vê confrontado com uma posição que está ligada a esse contexto ao qual me referi aqui. Para Nietzsche, a tarefa da paideia, a tarefa da formação é a criação de condições para o desenvolvimento pleno de uma personalidade própria, de um si próprio, de uma singularidade. Ou seja, a meta fundamental da atividade de formação seria, justamente,  o cultivo de um genuíno si mesmo, de um genuíno si próprio. Ora, precisamente esta meta da educação e da formação é aquela que se encontra em oposição à tendência do seu tempo,  que na verdade atrela a formação e a educação ao desenvolvimento de outros tipos de virtude – não uma virtude que consiste no cultivo da singularidade, do caráter próprio, de um si mesmo, mas que visa preparar os educandos para integrá-los às exigências do mercado de trabalho, ou seja, visa à consecução de fins que podem ser caracterizados por alguns termos bastante precisos. Em primeiro, lugar a formação passa a visar, sobretudo, o caráter funcional, a funcionalidade, ou seja, a preparação para o desempenho de tarefas que são requisitadas pela sociedade e pelas exigências do modo de funcionamento capitalista naquele momento e, fundamentalmente, a preparação do desenvolvimento de capacitações funcionais e de uma espécie de uniformização, de despersonalização que transforma as pessoas que passam pelo processo de formação em, digamos, peças de uma engrenagem que deve funcionar tendo em vista a maximização dos rendimentos e a utilidade social. O processo de ensino e de aprendizagem deixa de visar o desenvolvimento de uma capacidade de pensar por si, de desenvolver a sua própria sensibilidade, de promover uma autonomia intelectual e moral, de enriquecer a capacitação para o próprio discernimento. Deixa de visar o desenvolvimento daquele si próprio que, para Nietzsche, deve ser a tarefa filosófica formadora pedagógica por excelência, visando a singularidade da pessoa, a habilitação para pensar e agir com independência, o fortalecimento de virtudes peculiares, a um caráter próprio e não visando à impessoalidade, à uniformização, o nivelamento que estariam ligados a, chamemos assim, virtudes como adaptabilidade, prestabilidade, eficácia, diligência, funcionalidade, ou seja, todo aquele conjunto de predicados que prepara a pessoa para a integração no mercado de trabalho, para a sua adaptação eficaz aos aparelhos de produção, aquilo que Michel Foucault, mais tarde, chamaria de produção de corpos dóceis e úteis.

Schopenhauer como educador, a preguiça e a pusilanimidade frente à tarefa de pensar por si colocada ao homem moderno – 20m09s

Giacoia Junior: Bom, tendo isso em vista, eu gostaria então de me referir agora aos textos do jovem Nietzsche que tocam, diretamente, esse problema e, em particular, primeiramente, claro, ao texto Schopenhauer como educador. Neste texto, já está colocado então um ponto crucial: se a tarefa da formação, se a meta da educação consciente em um desenvolvimento para um trabalho de cultivo e elaboração das virtudes que levam à configuração plena de uma personalidade singular, única, então este desiderato, esta meta, este alvo da educação já a coloca diretamente, estreitamente em contato com a tarefa da filosofia e com a tarefa da filosofia, digamos assim, tal como ela se encontra iconicamente ligada à figura de Sócrates, aliás, ao lema conhece te a ti mesmo que Sócrates tinha transformado na divisa da sua filosofia. Bem, conhece-te a ti mesmo, então, significaria o lema da filosofia e isto a colocaria diretamente em contato com a tarefa da educação na medida em que a educação seria o caminho que nos levaria a esse descobrimento de si mesmo, o que coloca, portanto, a educação como uma tarefa fundamental, como a tarefa fundamental do filósofo desde Sócrates. Apenas que Nietzsche vai entender como essa tarefa deve ser realizada de uma maneira bastante diferente daquela como Sócrates a entendia tal como nós veremos aqui agora. Para ele, neste texto do início dos anos 1870, o modelo ideal do formador, do educador, é, justamente, Arthur Schopenhauer. Nós não teremos tempo para um longo desenvolvimento sobre a relação entre Nietzsche e Schopenhauer, mas apenas para indicar a vocês como esta idealização de Schopenhauer permanece, digamos, pulsante no centro da reflexão nietzschiana, mesmo depois da sua ruptura com Schopenhauer, basta que nós façamos referência a um de seus últimos textos – o texto de 1888, chamado Ecce homo – onde Nietzsche vai dizer, referenciado-se a esse texto de 1873 Schopenhauer como educador, depois da sua ruptura com Schopenhauer, ‘aquilo que eu escrevi referindo a Schopenhauer, naquela oportunidade, na verdade, era uma visão minha, uma visão de Nietzsche como educador’. Então, vejam aquilo que estava presente nesse texto que nós vamos ler não foi de maneira nenhuma abandonado por Nietzsche na sua obra de maturidade. Nesse texto de 1873, Nietzsche, então, escreve a respeito do homem moderno, disto que nós somos, da modernidade cultural tal como ele a compreendia. Um traço característico disso para ele era, justamente, a impessoalidade, uma certa pusilanimidade do homem moderno fundamentalmente ligada à preguiça que faz com que nós homens modernos desenvolvamos um hábito tornado segundo a  natureza de nos esconder impessoalmente no anonimato dos costumes e da opinião pública. Contrariamente a esta tendência ao anonimato, à preguiça e à pusilanimidade, ou seja, à falta de coragem para assumir se enquanto alguém capaz de pensar por si Nietzsche escreve e eu tomo a liberdade de citar: 

“No fundo, todo homem sabe muito bem que ele, como um unicum, está no mundo apenas uma vez, e que nenhum acaso tão curioso misturará pela segunda vez numa unidade, como ele é, uma variedade tão admirável e colorida: ele o sabe, mas ele o oculta, como uma consciência malvada – por que? Por temor do vizinho, que exige a convenção e com ela se oculta a si mesmo. Mas o que é isso, que constrange o indivíduo a temer o vizinho, a pensar e a agir conforme o rebanho, e não estar satisfeito consigo mesmo? Pudor, talvez, em alguns e em poucos. Para a maioria, é comodidade, inércia, em resumo, pendor para a preguiça,” (Nietzsche, F. Consideração Extemporânea III: Schopenhauer como Educador, nº 1. In: Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA). Berlin; New York; München: de Gruyter; DTV. 1980, vol. 1, p. 340s. Tradução própria)Este pendor para preguiça é o que desperta, do ponto de vista de Nietzsche, o desprezo do grande pensador ou o desprezo do filósofo, a saber, daquele que está envolvido e empenhado com a tarefa, digamos, pedagógica da educação e da formação. A este que despreza a preguiça e pusilanimidade, exclama Nietzsche, ‘seja você mesmo. Nada disso que você agora faz e deseja é você mesmo’. Porém, como vocês podem perceber, esta conclamação ao si próprio, ao si mesmo leva a um problema, cito mais uma vez: 

“Nada disso és tu. Ninguém pode construir para ti a ponte sobre a qual tu precisamente tens que passar sobre o rio da vida, ninguém além de ti mesmo. Decerto que há inumeráveis atalhos e pontes e semideuses que querem te carregar através do rio; mas apenas ao preço de ti mesmo; tu te darias em penhor e te perderias. Há no mundo um único caminho que ninguém pode trilhar, além de ti: para onde conduz ele? Não perguntes, prossegue. Quem foi que enunciou o seguinte princípio: ‘um homem jamais se eleva mais alto do que quando não sabe para onde seu caminho ainda o pode conduzir’?” (Nietzsche, F. Consideração Extemporânea III: Schopenhauer como Educador, nº 1. In:Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA). Berlin; New York; München: de Gruyter; DTV. 1980, vol. 1, p. 340s. Tradução própria).  

O cuidado e o trabalho botânico do educador, uma diferença entre o educador de Nietzsche e o educador socrático  – 28m13s

Giacoia Junior: Agora vocês veem, o grande problema que este elevar-se até si mesmo coloca: mas como encontrar a si mesmo? Como nós nos encontramos a nós mesmos? Como o homem pode conhecer a si mesmo? E aqui é que aparece para Nietzsche a magna tarefa do formador. O educador é aquele que prepara e que mostra o caminho para o si próprio. E aqui há a diferença fundamental entre Nietzsche e Sócrates. Porque o educador, para Nietzsche, diferentemente do homem socrático, não é aquele que se volta para a própria interioridade, que mergulha no interior de si mesmo. Ao contrário, para Nietzsche o caminho que leva a si mesmo passa pela exterioridade, pelo contato com o outro e, sobretudo, pelo contato com o seu educador. Cito Nietzsche aqui “que a alma jovem volva o seu olhar retrospectivamente sobre a vida e pergunte: o que, até agora, verdadeiramente, amaste? O que atraiu a tua alma? O que a dominou e, ao mesmo, tempo a felicitou? Coloca diante de ti a série desses venerados objetos, objetos de amor, e, talvez, eles com sua essência e sucessão te proporcionem uma lei fundamental do teu autêntico si próprio. Compara esses objetos, vê como um complementa, alarga, sobrepuja, transfigura o outro, como eles formam uma escada sobre a qual até agora te elevaste para ti mesmo, pois a tua verdadeira essência não jaz na profundidade profundamente oculta em ti, mas se encontra imensamente acima de ti, ou ao menos acima daquilo que atualmente tomas como teu eu” Essa passagem é decisiva: “Teus verdadeiros educadores e formadores revelam-te o que é o verdadeiro sentido originário e a matéria fundamental da tua essência. Algo inteiramente ineducável e não plasmável, em todo caso dificilmente acessível, algo preso, entravado que tais educadores conseguem liberar. Teus educadores conseguem não ser senão os teus libertadores. É este o segredo de toda a formação. Ela não proporciona próteses artificiais, narizes de cera, armações óticas. Pelo contrário, aquilo que tais dádivas – ou seja essas dádivas artificiais – conseguem proporcionar é apenas arremedo de educação. Educação, porém, escreve Nietzsche, é libertação, remoção de toda erva daninha, entulho, vermes que querem atingir a delicada semente da planta. Educação é jogo de luz e calor, amoroso murmúrio de chuva noturna, ela é imitação e adoração da natureza lá onde esta é maternal e misericordiosamente disposta. Ela é aperfeiçoamento da natureza quando previne e volta para o bem os seus fiéis e impiedosos ataques, quando estende o véu sobre as manifestações da disposição madrasta e da triste incompreensão da natureza” (Nietzsche, F. Consideração Extemporânea III: Schopenhauer como Educador, nº 1. In:Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA). Berlin; New York; München: de Gruyter; DTV. 1980, vol. 1, p. 340s. Tradução própria). Este é o ideal do educador para o jovem Nietzsche. Vocês percebem esse ideal da educação tem a ver aqui com o cuidado. Fundamental com o cuidado e o cultivo que prepara dispõe o educando, coloca o educando no caminho que leva ao seu si mesmo, aquilo que é a sua matéria fundamental, que é o seu si próprio. O educador não faz senão aquilo que faz o botânico, ele cuida da planta para que ela se desenvolva da melhor maneira possível. Educação, formação, é, fundamentalmente, para o jovem Nietzsche emancipação, libertação, capacidade de promoção da verdadeira singularidade, da autêntica personalidade. O contrário absoluto da instrumentalização e do desenvolvimento de virtudes meramente operatórias que visam adaptar alguém às exigências heterônomas da utilidade social e do mercado de trabalho.  

Uma reflexão sobre as diferentes recepções e enfoques da recepção de Nietzsche no Brasil – 35m42s

José Paulo Teixeira: Gostaria de agradecer ao professor Giacoia por participar da abertura de um novo calendário de introdução do programa dos Filósofos Inovadores – agora na perspectiva da formação de formadores -, apresentando o filósofo que é o ápice, o eixo do programa de educação que nós imaginamos ser aquele que poderá fazer a diferença nas urgentes transformações das práticas e de apresentação de conteúdos de educação. Vou deixar uma pergunta relacionada à entrada da sua aula, quando o senhor falou disso que é o coração do pensamento nietzschiano, que é o que nós chamamos de filosofia da cultura. Evidentemente, existem outras leituras, interpretações mais científicas ou metódicas do pensamento de Nietzsche, mas eu imagino que, para os nossos alunos e colegas, seria interessante uma percepção sua sobre essas duas ou três recepções nietzschianas no Brasil, uma percepção das diferentes escolas de leituras e de formação aqui entre nós – particularmente sobre essa visão da filosofia da cultura, da persuasão, da formação e da busca de si e uma a outra mais técnica, mais relacionada a um estudo mais científico ou de uma leitura de especialista no Nietzsche. 

Giacoia Junior: Eu não diria que se trata, propriamente, de diferentes vertentes ou de diferentes escolas de abordagem do pensamento de Nietzsche e que isso se diferencia sobre a forma de linhas de recepção do pensamento de Nietzsche. O que eu acho mais próximo da realidade seria dizer que aqueles que no Brasil e fora do Brasil, mas digamos centrando a nossa atenção aqui na nossa realidade brasileira, se ocupam com o pensamento de Nietzsche e se ocupam intensamente, mesmo profissionalmente, com o pensamento de Nietzsche colocam o acento da sua recepção e do seu estudo de Nietzsche em diferentes aspectos da obra nietzschiana. Existem aqueles que se ocupam intensamente com a hermenêutica do pensamento de Nietzsche, acho que essa é a tônica de todos nós que nos ocupamos com Nietzsche no Brasil. Esse eu acho que é o território no qual todos nós nos encontramos. Aqueles que se ocupam intensamente, seriamente com o pensamento de Nietzsche ocupam-se fundamentalmente com a análise da sua obra e, como a obra de Nietzsche é multifacetada, as diferentes interpretações em torno das quais se organizam os estudos da recepção do Nietzsche no Brasil, por vezes, dão uma ênfase maior a um aspecto e não a outro. Alguns estudos se fazem com vistas ao desenvolvimento da relação entre o pensamento de Nietzsche com as ciências, seja com a ciência da natureza, por exemplo, com a física ou com a ciências formais, com a lógica ou com a matemática; com as ciências humanas, por exemplo, com a história, com a sociologia, com a ciência política, com a antropologia ou mesmo com a educação. Outros colocam o acento sobre a riqueza temática do pensamento de Nietzsche, a constelação temática do pensamento de Nietzsche, e concebem Nietzsche, por exemplo, como um filósofo essencialmente ligado à moral, à crítica da moral e, neste sentido, é muito frequente a relação moral-religião na medida em que Nietzsche faz uma crítica da moral como sendo subtituto leigo, laico, da religião na modernidade. Então, existem os colegas que se dedicam, digamos, preferencialmente ou predominantemente à abordagem da crítica nietzschiana da moral, da crítica nietzschiana da política, da crítica nietzschiana da ciência e da metafísica, da filosofia… São trabalhos, portanto, que se inserem no âmbito, mesmo no interior, deste domínio acadêmico chamado epistemologia ou filosofia ou teoria do conhecimento ou teoria da ciência. E há aqueles que, digamos, se ocupam além da interpretação e, portanto, do trabalho imanente interno do texto nietzschiano, dos diálogos possíveis abertos pelo texto nietzschiano com outras disciplinas. Portanto, um trabalho aqui interdisciplinar, transdisciplinar, visando, digamos assim, a possibilidade de uma recepção fecunda do pensamento de Nietzsche por parte de outros domínios do saber, como a educação, a psicanálise, a ciência política, a filosofia do direito. Então, são muitos os esforços, são muitos os trabalhos que são feitos aqui no Brasil a esse respeito e eles estão espalhados por todo o Brasil hoje em dia, do Sul até o Norte do Brasil. E, nos diferentes centros universitários onde a pesquisa sobre Nietzsche se desenvolve, você encontra modulação, digamos assim, dentro deste espectro, com acento sendo colocado nesta ou naquela característica do pensamento nietzschiano. Hoje, aqui, nós estamos fazendo, a meu ver, uma prática interdisciplinar, transdisciplinar, tentando verificar como Nietzsche pode ser útil, proveitoso, se recepcionado, recebido, refletido a partir de uma tarefa de formação de formadores – que, a meu ver, faz parte do coração do pensamento nietzschiano. Não é alheio a sua filosofia, não é, de maneira nenhuma, uma preocupação periférica como eu tentei mostrar que desde Schopenhauer como educador, desde, portanto, os primeiros movimentos do pensamento de Nietzsche, a tarefa do educador, do formador, daquele que está empenhado na reflexão sobre os fins supremos da cultura e da formação. É um elemento vital que faz parte do centro pulsante do pensamento de Nietzsche. Isto é tão interno, tão visceral no pensamento de Nietzsche quanto na tradição filosófica em geral na medida mesmo em que Kant – o filósofo que, por assim dizer, funda o idealismo alemão no curso do qual Nietzsche se insere – define o filósofo, justamente, como aquele que é o gestor dos interesses supremos da razão. Ora, o gestor dos interesses supremos da razão é o gestor dos interesses ou fins a que deve servir a tarefa de formação. Então, nesse sentido, não se pode dizer que esse diálogo seja alheio, externo ou periférico ao pensamento de Nietzsche, mas ele se situa no seu próprio centro. Nesse sentido, já estou transmitindo uma das características do meu próprio empenho, da minha própria abordagem do pensamento nietzschiano.

Humano, demasiado humano, caráter e o papel da harmonização da multiplicidade de virtudes – 45m07s

Eugenio Lacerda: Como o senhor traria os ecos do pensamento de Nietzsche para a situação atual em relação à formação de professores? Eu tenho notado muitas produções nas ciências humanas, talvez por uma influência foucaultiana, em relação ao cuidado de si, ao governo de si. Há muita discussão na educação ligada à necessidade de trazer a tona para o formador esse pensamento do trato dos afetos, das condições individuais e que Nietzsche lá atrás colocou até dizendo que nós estamos no interregno e estamos experimentais. O senhor acha que continuamos experimentais? O que Nietzsche diria para os pedagogos hoje em dia? 

Giacoia Junior: Evidentemente, no âmago mesmo daquilo que eu procurei destacar como sendo o ideal de educação do jovem Nietzsche, está ligada a essa tarefa do cultivo de si, da prática de si que vai marcar indelevelmente a filosofia de Michel Foucault, por exemplo, e que vai ser, digamos assim, o traço característico do pensamento do último Foucault… na verdade, a tarefa do educador para Nietzsche, a tarefa do formador é, justamente, esta: cuidar. preparar alguém para torná-lo capaz de cuidar de si mesmo. Ou seja: não permitir que os seus talentos sejam dissipados no cultivo unilateral e específico de uma ou outra aptidão, de uma ou outra inclinação, de uma ou outra virtude como diz Nietzsche. Mas o cuidado de si, o cultivo de si, aquela metáfora botânica a qual eu me referi é que seria a tarefa do verdadeiro educador, seria, justamente, tornar possível a cada educando que ele fosse capaz de realizar uma síntese proveitosa, uma integração da suas diferentes aptidões, que elas não fossem atomizadas, sobretudo, que elas não fossem dissipadas, digamos, esterilizadas, desertificadas em proveito de uma única ou de um pequeno conjunto de habilidades, de habilitações – exatamente aquelas que o tornam mais atraente, mais rentável, mais útil, mais proveitoso do ponto de vista de fins externos à criação da verdadeira personalidade, ou seja, fins atrelados a exigências mercantis, fins atrelados a critérios de preferências que são de ordem, por exemplo, económica ou de ordem, digamos, meramente funcional. O verdadeiro educador nietzschiano deve ser exatamente aquele que cuida de um jardim, aquele que torna possível que as diferentes capacidades, habilitações, forças, potencialidades do educando sejam capazes de se desenvolver, de serem desenvolvidas, serem cultivadas e esta diversidade deve ser integrada em uma unidade harmônica. É isso que Nietzsche chama de cultura. Cultura, para Nietzsche, é exatamente isso: a introdução de um estilo que harmoniza a multiplicidade, que põe uma certa ordem na multiplicidade e que, neste sentido, esta ordenação, esta harmonização do múltiplo em unidade, é uma unidade artística. Nesse sentido, é algo que é promovido, que é cultivado pelo educador. É justamente isso que Nietzsche chama de caráter. É isso que vai fazer com que cada um de nós se expresse com uma singularidade e não simplesmente como uma peça capaz de ser anonimamente empregada em um maquinário impessoal e simplesmente apreciada em função de sua utilidade e funcionalidade. Isto é o ideal para Nietzsche e é por isso que para Nietzsche aquele que dá a diretriz, aquele que aponta na direção do modo como esta integração pode ser feita, é para ele o filósofo educador e o grande problema visto por Nietzsche na nossa modernidade é que falta este formador. Se ele julgava, na sua juventude, enxergar em Schopenhauer precisamente essa figura, isso era, ele vai descobrir mais tarde, uma idealização. Por isso é que ele vai dizer: não era Schopenhauer, era eu. Era o meu ideal de filósofo. Depois da ruptura com Schopenhauer, ele vai dizer e eu vou me permitir ler o aforismo 181, do texto Humano, demasiado humano, em que Nietzsche vai dizer: “A extraordinária incerteza de todo o sistema de ensino, em virtude da qual todo adulto tem agora a sensação de que seu único educador foi o acaso, o caráter volúvel dos métodos e intenções pedagógicas se explica pelo fato de que agora as mais antigas e as mais novas forças culturais são como, numa confusa assembléia popular, mais ouvidas do que entendidas, e a todo custo querem demonstrar, com sua voz, seu berreiro, que ainda existem ou que já existem. Nessa absurda algazarra os pobres mestres e educadores ficaram primeiramente atordoados, depois calados e enfim embotados, tudo suportando e agora deixando que seus alunos tudo suportem. Eles mesmos não são educados: como poderiam educar?” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano II. Opiniões e Sentenças Diversas. Aforismo nº 181. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. 87) Portanto, nós não podemos educar e, precisamente este ponto, como nós não temos aqui o educador, nós não podemos realizar a tarefa magna da educação. E é isto que é nossa tarefa para Nietzsche hoje. Quais são os ideias a que nós devemos vincular a tarefa do educador?