O Guia para novas leituras traz um roteiro para acompanhamento da conversa entre os professores José Paulo Teixeira e Juliano Pessanha sobre a antropotécnica de Peter Sloterdijk. O diálogo foi a parte final da terceira etapa do minicurso Introdução aos filósofos inovadores: uma compoesia, realizada no dia 03 de junho. Sloterdijk foi apresentado pelos professores no início da aula e os vídeos das exposições podem ser vistos aqui.

Abaixo estão destacados os principais momentos da conversa entre os professores, com minutagem e resumo das perguntas dos alunos. Assista ao vídeo e acompanhe o guia para novas leituras do diálogo sobre Peter Sloterdijk. A mediação é de Eugenio Lacerda, antropólogo da Cidade Futura. Envie comentários e dúvidas para o e-mail acidadefutura@gmail.com

Diferença ética, o chamado timótico de Sloterdijk, a questão da linguagem como saída aos modelos de educação, o apelo da antropotécnica à verticalidade – 0m37seg

Eugenio Lacerda: Gostaria de pedir que o professor Juliano faça um comentário a partir da exposição do professor José Paulo e vice-versa.

Juliano Pessanha: Sobre o problema pedagógico de hoje em dia, o Sloterdijk termina o livro falando das escolas, numa espécie de fracasso pedagógico. Ele diz que as pessoas vão para a escola aprendendo só a fazer a regra daquele jogo, sabendo que vão pegar aquele diploma, que tem que fazer aquilo, mas a escola já não constitui nenhum tipo de experiência positiva no sentido de o professor servir de modelo para o aluno, vamos dizer, querer se elevar, se estimular. Isso é a ideia da diferença ética, que fica meio complicada na modernidade, porque você tem um certo igualitarismo democrático. Na antiguidade, você tem o sábio e o não sábio. No mundo da cristandade, você tem o cara que tem a graça e o que está sem a graça. Tem uma diferença. Eu dou em aula em um curso de escrita e todo mundo fala: “ah todo mundo escreve, todo mundo pode ser escritor”. Ninguém coloca uma referência como, sei lá, o Thomas Mann na A montanha mágica para escrever um livro. Ou de ter que se elevar e imitar o Hermann Broch para escrever. Então, você teria uma espécie  de nivelamento no qual a pessoa vai relaxando muito e o eros consumista é isso: “ah eu quero ir pro Tahiti curtir a vida, como um bonachão cervejeiro”. Como chamar para afetos timóticos quando pega mal se eu chegar numa sala de aula e falar para um menino “cara, o que você quer fazer de si? Como é que você vai fazer algo belo de si?”. De algum modo, é o tema foucaultiano de produzir uma diferença ética dentro de um mundo em que pega mal você falar em diferença. Mesmo na arte você não fala mais do talento, que o cara tem um talento, isso lembraria a diferença do antigo regime da nobreza e do plebeu. Então, teríamos um problema no exercício mais radicalizado hoje. Eu vejo que o Sloterdijk tem um problema para o mundo de hoje, porque ele está recolocando afetos nietzschianos. Para ele, tem a psicologia do eros e do thymos. O thymos é aquela glândula que tem a ver com o orgulho, com a ambição. O Sloterdijk fala “Juliano, faz algo de si rapaz.” Ele tem esse chamamento, como o José Paulo falou, uma disciplina. É o tema do Foucault também, o cultivo de si. Um trabalhar-se. O homem moderno ficou muito relaxado em relação a isso por causa da disponibilidade técnica de tudo. Então, nós teríamos que reaprender. Ao invés de falar em valorizar a obra de arte, cada um tinha que virar obra de arte. Esse último Foucault estava muito ligado nessas questões. Agora, são questões que são difíceis de colocar hoje por causa dessa ideia  de que “ah, todo mundo é igual”. Eu dou aula em faculdade de artes e todo mundo é artista, todo mundo pode ser artista. Você não tem mais uma regra de imitação e de treino. Então, aquela coisa mais aberrante vira regra. É nesse ponto que muita gente acha o Sloterdijk conservador, porque tem esse chamado. Eu colocaria isso para o José Paulo, no ambiente da educação, como é que fica esse chamado timótico nietzschiano para essa diferenciação ética? “Ao invés de querer ir pra Miami, Flórida, DisneyWorld, vai aprender sânscrito para você fazer algo legal e não ficar nessa horda do consumo”.

José Paulo Teixeira: Juliano, eu acho que o Sloterdijk faz um recorte interessante do ponto de vista filosófico, mas também do ponto de vista ético que é trazer para dentro do projeto de autoformação, de operar-se, nesse processo de exercitação, a questão da linguagem, a questão da comunicação, a questão dos entendimentos. Eu acho que esse aspecto da linguagem em Sloterdijk é bem importante, porque, nas várias apresentações que ele faz tanto no livro Esferas como também sobre antropotécnica e outros dos seus trabalhos, ele destaca essa questão da linguagem como uma forma da gente sair daquele modelo de formação ou educação de base mais estruturalista, aquela educação mais mediana. E ele coloca, por conta dessa questão da linguagem, vários conceitos importantes para a gente trazer para o debate, por exemplo, de uma escola democrática e, aí, ele diferencia: você pode ser nobre sem ser aristocrata; você pode ser guerreiro sem ser militar; você pode ter autoridade sem o mandonismo, sem querer assenhorear-se; você pode ser um vivido ético e, ao mesmo tempo, não ser pedante, não pensar que você está sujeito a não cometer deslizes, erros. De qualquer forma, eu acho que essa é a dimensão da linguagem que é importante trazermos para o ambiente da educação e da formação. Eu dou esses exemplos de cotidiano, porque sei que é bem difícil fazer uma educação, por exemplo, baseada na diversidade, nas distinções, mesmo na questão da meritocracia em um mundo, em uma sociedade que cada vez mais valoriza um discurso da igualdade, um discurso da participação, da horizontalidade. E o apelo da antropotécnica é um apelo à verticalidade, é uma tensão vertical permanente, porque coloca além dessas questões digamos de consumo, de emprego, de trabalho. Além dessas questões têm essas questões da espiritualidade, da nobreza, da grandeza, do caráter – que são aspectos importantes que, às vezes, não são trabalhados como deveriam ser nas escolas e nos processos de formação, não somente de ensino superior, mas também no ensino médio, no ensino fundamental, dentro e fora das casas. 

Juliano Pessanha: Eu só lembraria o José Paulo aquilo que o Sloterdijk coloca no final do livro como ‘três repetições malignas’. E, dentro desse paradigma antropotécnico, se o homem é repetição, você tem que ver qual é a repetição boa e a repetição maligna. Ele fala dos campos de extermínio como algo a não se repetir, fala do sistema das artes –  que ele critica – e das escolas. Tem uma passagem sobre a escola – e que um dia a gente pode discutir – bem desfavorável à escola no jeito que ela funciona hoje. 

José Paulo Teixeira: Isso que ele chama de a ‘dimensão crepuscular da escola moderna’ e que ela não está conseguindo dar conta do desafio humano e planetário.

Juliano Pessanha: Isso e que as pessoas entram na escola,  e para mim foi um pouco assim, como se você fosse aprender aquela regra do jogo, mas o professor não significava nenhum tipo de exemplo, de chamado. Então, você fica ali, embroma, sai e aprende a lidar com aquilo, mas aquilo como se fosse um sistema que está vazio, está, vamos dizer assim, aos frangalhos. Ele fala que a escola tem aquele problema da escola na modernidade: ou ela formava cidadão para o estado ou personalidades autônomas no sentido mais nietzschiano e goethiano – que é o caso da escola onde Nietszche estudou, no seminário de Tubingen onde Hegel e o Schelling estudaram. Então, teria um conflito ai que a escola,  às vezes, formava pessoas que colocavam tudo em questão. Mas, quando ele fala da escola hoje, ele fala que ela tá falida, porque não tem nenhum tipo, vamos dizer no sentido antropotécnico, de um outro forte. O professor é apenas alguém que o pessoal não liga, não respeita. É uma análise interessante que está no final do livro.

Operar-se e deixar-se operar, a alienação e a vida em exercício, a operação na formação de si e a possibilidade de superar-se a si mesmo em Sloterdijk – 15min23seg

Eugenio Lacerda: Eu já li alguns diagnósticos sobre a modernidade desde Foucault e a condição humana e devo dizer que o diagnóstico que o Sloterdijk faz é, simplesmente, arrasador. Professores, me parece, da leitura que eu fiz, que nós temos duas antropotécnicas conflitantes ou, talvez, uma de maior valor e uma de menor valor, com maior ou menor exigência. Uma que seria deixar-se operar, que funcionaria com o corpo anestesiado, e outra que é o auto-operar-se que funcionaria com o corpo resiliente, que investiu nas suas capacidades de reagir ou de se autotransformar. No final do livro, em termos de um certo otimismo, o Sloterdijk se preocupa com isso, mas ele diz o que é possível fazer. O professor Juliano tocou nesse ponto: o que fazer a partir desse diagnóstico? Eu pediria um comentário dos dois a respeito disso. “Está na hora de lembrar novamente de todas as formas de vida, de exercícios que não param de liberar energias salutogênicas como quando as exaltações na direção de revoluções metafísicas nas quais elas estavam integradas inicialmente se dissiparam. Formas velhas devem ser examinadas referente a sua reutilização, novas formas devem ser inventadas, um novo ciclo de secessão deve começar para tirar os homens novamente, se não do mundo, mas da estupidez, da depressão, do fanatismo e, acima de tudo, da banalidade”. Esse trecho está no final do livro dele como se fosse a guia que ele apresenta para superar esse estado de coisas que a gente vive agora, nesse momento, de uma maneira hiperentranhada no movimento do sujeito moderno pós-moderno. 

Juliano Pessanha: Eu não me lembro dessa passagem da operação, mas o Sloterdijk quer muito sair daquele discurso da alienação. É interessante que o último Foucault também saiu disso. Quer dizer, quando eu vou para uma escola filosófica na antiguidade eu vou com os meus próprios pés, ai eu vou conversar com o Epicuro, eu vou seguir àquelas regras, àquela cartilha para me transformar num sábio de acordo com àquela escola. Essa tecnologia de subjetivação não é alienante. Sou eu que escolho. Por exemplo, eu vou no médico e digo que ele pode me anestesiar, o que seria o ápice da alienação, – ali ele está discutindo com o Sartre. O Sloterdijk fala “não, sou eu que estou dizendo para ele me anestesiar. Depois eu vou voltar a melhorar”. O Sloterdijk está muito nessa linha do último Foucault, não descrevendo as coisas como sujeição. A antropotécnica é essa ideia de que você se modela segundo o exercício. Então, um pitagórico faz exame de consciência, um estóico faz um exercício de suprimir o sujeito empírico para se elevar ao todo dos cosmos. Se eu pego câncer eu falo “bom, mas o câncer tem a ver com o todo do cosmos, não foi alguma coisa que eu criei por alguma ação”. Eu aceito aquilo serenamente. Então, as antropotécnicas são os exercícios que levam a formar o sábio estóico, o monge cristão, um atleta. Isso são as antropotécnicas. O que estávamos discutindo do deixar-se operar eu acho que é nessa linha. Para o Sloterdijk, não tem uma alienação quando eu falo para alguém me dar uma anestesia. Em termos do Sartre, muitas experiências que eram descritas como alienantes o Sloterdijk está tentando tirar dessa chave, assim como o último Foucault. Espiritualidade no Foucault é eu sair do sujeito um para acessar uma verdade, vamos dizer assim. O Foucault diz que no marxismo teria espiritualidade porque você modifica de sujeito um Juliano para sujeito no corpo do proletariado. Tudo que é essa transformação de si teria a ver com essa espiritualidade, né. Então, quando você estava nesse processo lá nas escolas filosóficas da antiguidade era você que escolhia. Agora,  o homem moderno ficou mais relaxado. No Cioran você não tem exercício nenhum, o cara fica deitado na cama. Então, a ideia que você leu naquela passagem é isso, que a gente tem que retomar, mesmo que esses exercícios metafísicos já não queiram ir para cima. A gente tem que retomá-los para tentar sair desse império do consumo, para fazer algo belo de si. Agora, eu acho que o auto-operativo é  essa coisa do deixar-se operar, é para descrever coisas sem usar o termo alienação. Então, por exemplo, se eu falo para o médico que eu vou fazer uma cirurgia, ele vai me tirar do ar mas eu estou no comando nesse sentido. 

José Paulo Teixeira: Isso vale para todas as áreas da vida. Deixar-se divertir, deixar-se estudar Essa atitude do sujeito moderno é mais ou menos a entrega de si, porque ele de alguma forma define outras prioridades. Essa parte operadora da formação de si que ele meio que entrega ao especialista, ao mediador nesse processo de formação. Antes o próprio sujeito dava conta da sua autoformação, mas esse processo de autodidatismo era uma espécie… um médico era médico porque ele estudava, não tinha escola de medicina. Ele ia aprender medicina, ele era um autodidata. Hoje os processos de formação estão institucionalizados e, de alguma forma, isso me fez lembrar, Juliano, de uma outra dimensão que nós não destacamos nesta obra do Sloterdijk que é essa diferenciação que ele faz entre os sujeitos desinibidos e os sujeitos que se entregam, que são sociáveis, os sujeitos que são ativos e os sujeitos mais inibidos, tímidos, aqueles que têm dificuldades. Às vezes, até tem um desejo de realizar, de se tornar alguém, quer dizer, fazer algum tipo de caminho de vida, mas ele não tem as condições. Então, essas questões das humanidades ou chamado da condição humana, de alguma forma, atravessou essa dupla dimensão da formação do homem, que seria o aspecto da natureza dele, das condições físicas ou biológicas ou da situação social e as questões mais, digamos, culturais, das oportunidades, das questões das chances que a vida oferece. E essa distribuição das chances, das oportunidades, não é democrática. E aí entra, justamente, o grupo mais ativo, mais desinibido, mais competitivo, aquele que, às vezes, nem é o melhor médico, mas é aquele que teve as oportunidades que, talvez, o melhor médico, a pessoa que seria um físico genial, às vezes, não teve, não consegue realizar o seu sonho. Então acho que essa questão que o Sloterdijk coloca como desafiadora é próprio disso que chamamos antes de ‘condição humana’. Só que essa condição humana não divide mais as pessoas em ativos e passivos. Agora abre um novo filão, agora existe uma dimensão exercitante nesta vida, nesta relação humana. Essa questão das antropotécnicas se torna chave na formação. É a própria chave da educação moderna ou pós-moderna ou hipermoderna, porque fazer exercícios, exercitar-se, ir a luta, superar-se, enfim, isso ultrapassa os limites ou as limitações, às vezes históricas, às vezes raciais, às vezes de gênero. Enfim, essa possibilidade de superar-se a si mesmo. A perspectiva da antropotécnica é uma perspectiva de superação de si. Acho que esse é o aspecto mais relevante das leituras que podemos fazer do Sloterdijk. 

A passagem para a dimensão timótica, a crítica da pressa e o pós-pandemia para Sloterdijk – 24min20seg

Pergunta Raul Araújo: Como se daria essa passagem para o thymos. É alguma coisa individual ou tem algo de um movimento? No Ira e tempo, o Sloterdijk vai fazendo a leitura de todas as transformações, no meu entender, a partir da ira e ele termina, inclusive, falando dos trabalhadores que perderam a guerra. Então, como pensar essa passagem do erótico para o timótico?

Juliano Pessanha: Eu acho que essa passagem não é aquela questão do revolucionário do dia para a noite. Uma das críticas do Sloterdijk ao século XX é a pressa. Ele pensa em termos de longa duração, parecido com aquilo que eu falei do Foucault do “quanto tempo leva para fazer o monge cristão?”. Não é do dia para a noite, são 500 anos. O que eu penso que está no horizonte desse convite à mudança da forma de vida hoje, por exemplo, são as gerações daquela menina de 15, da Europa (Greta Thunberg) que já não pensa em ter um carro, vai ter uma bicicleta e, cotidianamente, fazer algo que não comprometa essa dimensão planetária. É isso que seria essa ideia do coimunismo: uma diminuição. A luta do século XXI do Sloterdijk seria ver se há uma contenção do consumo, principalmente, nesse pessoal mais rico. Ele deu uma entrevista dizendo que, após a pandemia, a frivolidade consumista vai baixar, não vai retomar logo. Tem gente que fala “ah eu vou trabalhar menos, eu vou pintar, vou estudar sânscrito”. É ai que você pode pegar o tesouro das práticas antigas que estavam ligadas à metafísica e fazer outro uso. Eu acho que o Sloterdijk pensa em termos de longa duração. Ai são transformações, transvalorações culturais e é isso: você largar o carro, um técnico pesquisar um carro solar. Eu acho que não é uma revolução no sentido do “proletários do mundo, uni-vos”, mas essa mudança de vida como um chamamento. Acho que aquela mocinha, que o pessoal até crítica (Greta Thunberg), está nessa linha, nessa geração jovem da Europa. “Vou fazer algo de mim para não ficar só querendo conhecer a praia brasileira, viajar de avião”. Não viaje de avião, estude sânscrito. É tipo o exemplo do Sloterdijk, um cara que podia ser um playboy internacional e fez uma obra para superar o Nietzsche e o Heidegger. Ele critica muito a pressa do século XX, ele acha que temos que viver numa espécie de sociedade complexa e essas transformações nele são mais de longo prazo.

José Paulo Teixeira: A obra do Sloterdijk está situada numa interface entre a ciência e a poesia. O pensamento filosófico resgata, evidentemente, a dimensão amorosa da vida, toda essa perspectiva platônica da educação, toda essa questão, digamos, de uma perspectiva mais humanista, que é um pouco o modelo de educação que nós temos. A perspectiva do Sloterdijk é uma perspectiva pós-humanista ou além desta dimensão mais de formação baseada, digamos, na clivagem entre aquilo que seria humano, o divino, e aquilo que seria animal e maquínico. Acho que essa percepção do Sloterdijk é importante, porque ele não separa do humano nem a sua animalidade – que ele chama do desinibido, a bestialização, todo esse processo de embrutecimento do humano – nem a sua dimensão divina – que é essa espiritualidade. Daí ele destaca essa dimensão, essa tensão vertical permanente, essa ascese, essa busca de espiritualidade e essa terceira ponta que o pensamento do Sloterdijk faz em relação ao humano, que é essa dimensão técnica. A antropotécnica, de alguma forma, é uma maneira de você recolocar de novo, em termos hipermodernos ou pós-modernos ou além desse modelo de homem que nós temos, uma perspectiva onde a coragem, a virtude da nobreza, a questão da própria honestidade, da ética, esses outros valores eles ganham um posicionamento na hierarquia, na tábua de balança onde desequilibra aquela hierarquia que se tinha entre a dimensão material ou econômica da vida. As determinações, digamos, aquelas das condições sociais ou mesmo os determinismos políticos, essa dimensão da escolaridade ele recoloca uma nova tábua e novas perspectivas de valores. E ai é que entra essa dimensão da coragem, do thymos que não se separa, evidentemente, do amor e não se separa, evidentemente, da vida porque toda a antropotécnica é um retorno, é essa dimensão efetiva e plena da vida, mas não mais da vida que separa os homens entre ativos e passivos, mas os homens pensados na sua completude, na sua inteireza, na sua humanidade inteira. Eu acho que pensar de uma maneira timótica a filosofia de Sloterdijk é recolocar, de novo, o homem na sua grandeza, na sua plenitude. Por isso que a dimensão timótica e erótica só se realiza, se torna plena, com esta dimensão poética. E a poética que eu estou destacando aqui é essa poética da superação, a superação dessa condição humana que diminui, que, de alguma forma, anula toda essa potência de vida e de liberdade que nós somos capazes, que o ser humano é capaz. 

A imanência, o sujeito moderno sob a luz da antropoténica, as asceses para Sloterdijk e as transformações da vida no pós-pandemia – 33min33seg 

Eugenio Lacerda: Pergunta do Maurício Guimarães: é possível desenvolver um pouco mais desse texto com a pandemia? A Regina Teixeira pergunta  quem é o sujeito moderno para Sloterdijk. O Bernardo Bento pergunta o que é democracia para Sloterdijk sob o viés da antropotécnica e a Bianca Vilhena comenta “gostei da ideia de que, mesmo não havendo mais transcendência, haveria um modo de suspensão ou elevação imanente, poderiam falar mais sobre isso? 

Juliano Pessanha: Quem fala muito em elevação na imanência é o Nietzsche. O paradoxo do Nietzsche seria isso: que o céu desabou, mas devemos continuar praticando. Quer dizer, o Nietzsche foi o primeiro ascetologista, porque ele identificou as asceses bionegativas dos sacerdotes, do asceta cristão, ele identificou essa linhagem de 3 mil anos. Só que, quando ele foi fazer as asceses biopositivas, tem um pouco no Ecce Homo o que você deve comer, qual ar deve respirar. O Sloterdijk acha que ele foi muito tímido, porque ele também era meio doentinho, ficou muito fixado na crítica ao platonismo cristianismo. Então, a questão fundamental do Nietzsche era se era possível codificar o ser humano, belo, vamos dizer assim, fora dessa codificação platônico-cristã. E ele identificou só essa linhagem de exercício. O Sloterdijk parte dele, mas vai tentar falar quais exercícios biopositivos. Por exemplo, as regras de um artista disciplinado, que acorda cedo, os exercícios militares de um kamikaze, a disciplina de um atleta. O Nietzsche avançou pouco nos exercícios biopositivos. É uma crítica que ele faz ao Nietzsche no capítulo sobre Nietzsche. Quando tem a primeira feiticeira dizendo para o menininho não fazer xixi ali e dormir daquele jeito já é uma técnica de hominização. A antropotécnica que vai codificar o humano assim ou assado como sábio estóico ou como monge cristão ou como um zen budista ou um intelectual moderno. Isso é resultado de exercícios diferentes com atratores diferentes. Então, o Nietzsche para o Sloterdijk seria o grande diagnosticador do homem como ser exercitante, só que ele ficou mais na diagnose das asceses enfermistas, doentias, do sacerdote. Quanto à pergunta do sujeito moderno, acho que tem muito aquela coisa que eu falei do inicio do renascimento, as energias metafísicas que estavam acumuladas foram para plasmar uma bela personalidade. Depois, tem um outro momento que ele discute com Foucault, vigiar e punir, que é o momento das disciplinas, que tem um excedente populacional no estado moderno. Então, as previsões, as escolas, é para você colocar em forma maior número de gente, não é mais ascese como na antiguidade, de um para um. Ai ele pega toda a ideia do vigiar e punir. Quer dizer, você vai colocar em forma populações excedentes. Ai surge o presidio e tal. Eu vejo a análise que ele faz do Petrarca, do Renascimento e, depois, dos regimes disciplinares na maneira foucaultiana. O relaxamento, por causa da tecnociência, da disponibilidade, a existência fica mais leve, as asceses diminuem. A radicalidade da ascese no moderno fica perdida, porque ele tem tudo a disposição. Quer dizer, ele não precisa superar a sexualidade, ele não precisa superar a morte. Ele vai para o hospital e consegue viver mais tempo. É um pouco essa ideia. Sobre a pandemia, eu recomendo essa última entrevista que ele deu no El país em que ele fala que vai ter uma frivolização do consumo, que, para ele, estaríamos dentro desse palácio de cristal do consumo, todo mundo nesse frisson da vida consumista e isso teria uma baixa após a pandemia. Agora, nós não sabemos fazer outra coisa a não ser produzir e consumir. E esse que é o ponto. Por isso que tem um chamamento para essa dinâmica exercitante, para fazer alguma coisa além da gente só… a Hannah Arendt fala que, se o trabalho fosse suprimido pela maquina – como a gente não tem nenhuma nobreza espiritual ou social, a gente só sabe trabalhar, – ia ter uma sociedade de trabalhadores que não podem mais trabalhar, o que seria um desastre.Eu vejo que a gente tem que pegar nesses tesouros de exercícios da antiguidade para inventarmos. Tem muita gente que faz yoga, todo esse tipo de exercício leva você a não ficar o tempo todo indo ao shopping, ficar disperso, como diria o Heidegger ‘só nos entes disponíveis’, para fazer uma relação melhor de si com si, para fazer algo melhor de si.

José Paulo Teixeira: Depois, se o Juliano pudesse falar um pouquinho das Esferas e das imunidades, porque eu acho que ajuda a entender as situações limites que estamos vivendo hoje, que derrubaram a economia e a vida de muita gente. A pandemia teve um impacto inesperado, a humanidade não estava preparada, quer dizer, nós nunca estamos preparados para o surpreendente, para o inesperado, mas nós temos os sintomas, os sinais do nosso tempo. Eu acho que o padrão de vida atual, sobretudo agora com o impacto da pandemia, vai, de fato, levar as pessoas a repensar algumas escalas de valor ou, pelo menos, de dedicação de tempo, de prioridades. Vamos colocar mais na balança. Eu não acho que isso vai ser horizontal, que será uma coisa como se fosse o novo mundo, uma nova época, porque as humanidades e a condição humana sempre é essa coisa junta, de chegarmos a uma dimensão mais para cima, mais elevada e, também, mais crepuscular, mais decadente. Acho que a condição humana está um pouco permanentemente entre esses dois planos de vida, que, em termos de história e de humanidade, é isso que separa o lado bom e o lado ruim, o mal e o bem, toda essa divisão, enfim, essa condição humana vai permanecer ainda na história. Mas eu acho que vai também possibilitar uma reflexão profunda de pensarmos as formas de distribuição de riqueza, distribuição de valores, distribuição de tempos, distribuição das nossas próprias ocupações, das prioridades de vida. E aí eu já ligo com a questão da democracia e do sujeito moderno, porque eu acho que, dificilmente, o nosso modelo de desenvolvimento vai sofrer um baque ou vai recomeçar de novo. Acho que vamos continuar nesse processo doentio de hiperprodução e de consumo, evidentemente, e de distribuição desigual desses bens e dessas riquezas. Portanto, o sujeito moderno, que seria, no meu ponto de vista, o sujeito das antropotécnicas, continua sendo esse sujeito que não sabe lidar com a dimensão do limite da vida, da hybris humana, da incapacidade de controlar, de estabelecer limites. O sujeito moderno é essa entidade que, de alguma forma, é uma aceleradora da sua própria ou do seu próprio desenvolvimento, do seu próprio progresso, enfim, da sua própria evolução em termos das dimensões da vida. Ele também é esse acelerador da sua própria decadência, da sua própria doença, da sua própria finitude. Esse sujeito moderno é sobretudo alguém que não lida com o tempo de uma forma espiritual, de uma forma vertical. Essa dimensão que transcende da imanência… quer dizer, é como se a vida brotasse de dentro dos corpos humanos e também dos seres vivo e ai estaria, digamos, o cálculo da vida. É a dimensão da finitude, a dimensão da pequenez, daquilo que é efêmero, enfim, da dimensão da própria morte. Mas o homem, possivelmente, vai lidar ainda com esse desafio de atropelamento de tempo, atropelamento da história, atropelamento do outro. Acho que esse processo é que faz com que a dimensão timótica esteja muito associada à dimensão cinética e que, talvez, no futuro as próprias ciências – a começar pela medicina – terão de começar a colocar a possibilidade do exercício da medicina ou do exercício da cura, o exercício da salvação do homem passará por uma cinemedicina. Ou seja, se você conseguir desmobilizar esse processo cinético avassalador do tempo e da própria destruição do homem e também da natureza da vida, eu acho que é possível, dai, ter uma luz, mas depende muito desse desenvolvimento, disso que eu chamaria de uma cinética, de uma medicina cinética, para a gente acompanhar, monitorar esse processo de movimentação ou de mobilidade humana. E ai significaria a gente repensar a secessão, repensar não somente a sociabilidade, a intervenção na história, mas também pensar outros modos de vida que valorizem também o isolamento, que valorizem também as situações mais, digamos, não explícitas, não situações humanas, menos divertidas, menos desinibidas. Acho que depende muito dessa atitude da gente controlar a nossa própria impulsão mobilizadora, esse processo que nós mesmos aceleramos, seja as nossas metas, as nossas inteligências, as nossas liberdades. Eu acho que o futuro do homem vai recolocar de novo a dimensão da casa, a dimensão do isolamento e vai valorizar o fato de você não estar o tempo todo sendo produtivo, de qualquer forma, vai recolocar de novo outros valores da vida, que eu acho que é o mais importante – que é esse equilíbrio que seria o equilíbrio vital e também planetário. 

Os governos e a democracia para Sloterdijk durante a pandemia, a análise do antropoceno e a ética da razão poética – 49mim09seg

Eugenio Lacerda: O Braulio Rodrigues pergunta: estou elaborando uma tese de doutorado em Peter Sloterdijk que quer pensar uma ética para o antropoceno. Seria possível dizer que Sloterdijk é um defensor de um globalismo ético quando fala de uma globalidade ou de uma civilização global em oposição à globalização do capitalismo? 

Juliano Pessanha: Eu esqueci da pergunta da democracia e queria responder um pouco com um texto da própria entrevista da pandemia. Eu achei interessante que o Sloterdijk, na entrevista diz sobre esses governos tipo o do Brasil e dos Estados Unidos, pautados pelo ressentimento, desse populismo de direita. Ele diz que esses movimentos não são operativos, eles não sabem resolver problema, são muito pouco práticos, só expressam insatisfação e que, de nenhum modo, são capazes de resolver problemas. E ele fala ‘creio que serão os grandes perdedores da crise, o público terá entendido que não pode esperar nenhuma ajuda da sua parte’. E, em uma pergunta anterior a essa, ele diz que, se o Estado fica por algum momento mais forte por causa dessa questão sanitária, isso pode, em algum momento, corromper as nossas demandas democráticas e que é preciso uma tarefa do público geral e da classe política nesse futuro próximo que é vigiar essa volta clara às liberdades democráticas. Sobre a pergunta do Braulio, eu concordo com os termos da pergunta. Não sei se você leu o que O que aconteceu no século XX, mas o primeiro capítulo desse livro é uma análise do antropoceno. Acho que isso é, realmente, uma coisa de longo prazo, como o José Paulo falou, de transvalorações culturais. Por exemplo, uma transvaloração do capitalismo seria a doação, o afeto timótico dos milionários embelezarem o mundo com doações, desfazendo aquela coisa da culpa e da dívida. Seriam transvalorações nietzschianas em vários campos. A doação transvalora também o capitalismo e é um afeto, sei lá, batailliano, timótico. Eu acho que é mesmo uma ética para o antropeceno e as antropotécnicas são pensadas para isso, para constituir os códigos dessa civilização planetária. Aprender o caráter timótico da obra de Sloterdijk, por exemplo, para mim foi fundamental. Eu era muito relaxado, ai eu passei a ler a tradição filosófica. Você fica mais chamado para uma elevação. Então, eu concordo com a sua pergunta. Acho que esse livro tem a ver com a dimensão já do antropoceno e de uma ética planetária, mas isso como algo de médio e longo prazo e transformações culturais onde nós somos reivindicados nesse chamado à mudança de vida. 

José Paulo Teixeira: No final do texto No palco giratório de Peter Sloterdijk, eu escrevi sobre essa relação entre o projeto da antropotécnica e a ética em Sloterdijk. Eu falo que a situação limite que estamos vivendo hoje é decisiva, porque ela nos remete a duas possibilidades. De um lado, remete a uma ética da razão poética e, de outro, a prosseguir o caminho cego da razão iluminista. E nós perdermos a chance de fazer da filosofia inovação em educação, de forma que possa aproximar as cifras da inteligência com as exigências da liberdade. Acho que a perspectiva que eu até desejaria continuar seguir na leitura e na conversa sobre Sloterdijk é, justamente, a clivagem – que esse texto e também o livro dele Você precisa mudar a sua vida colocam – do dilema atual entre seguir o rumo planetário histórico – nessa hipermobilidade, essa hipermodernidade tal como está e acelerando cada vez mais, endereçando a um final trágico – ou nos reposicionarmos enquanto agente da história, de transformação dessa história, como sujeitos exercizantes no sentido da gente criar uma outra perspectiva de vida, que é essa que eu chamaria de uma ética da razão poética. E por que eu afirmo essa ética como uma razão poética? Primeiro porque o caráter é a casa do homem, ou seja: ethos, anthropos e daimon.  Nós moramos em nós mesmos, nós somos aquilo que nós produzimos de nós mesmos. Então, esse é um ponto. Não existe nenhum projeto humano fora disso que nós somos, nos constituímos como pessoas. É interessante a relação que uma filósofa bem importante que trabalha com Ortega y Gasset me ensinou certa vez, a diferença que ela faz entre pessoa e indivíduo. O indivíduo seria aquele que estaria mais ou menos agenciado, catalogado ou, de alguma forma, já programado para seguir a vida tal como ela é. A pessoa não tem essa dimensão, que eu chamaria de dimensão espiritualizada, dimensão verticalizada da vida, que faz com que nós tenhamos além da dimensão econômica, produtiva, histórica, enfim, tudo que é, digamos, da condição humana, essa outra dimensão que eu chamaria da dimensão ética dessa razão poética, que é a criação do homem, a sua potência de vida plena. Eu acho que essa é a mensagem e, por isso, cabe muito uma tese de Sloterdijk nessa perspectiva ética cruzada com a dimensão da liberdade. 

A esferologia e a antropotécnica – 1hmin00min56seg

Juliano Pessanha: A relação da esferologia com o livro das antropotécnicas é que, na esferologia, você tem as formas de mundo, a morfologia dos mundos. Por exemplo, na morfologia globo, que é o mundo metafísico, você tem o homem buscando o absoluto, o deus. Então, tem o epicentro, que é o homem, e você tem ascese. Para cada forma de mundo, você tem o tipo de exercício correlato. No Esferas II: Globos é o lugar das asceses metafísicas, porque o homem está posicionado como alguém que busca o absoluto. Se você pegar cada cultura tradicional, uma cultura como a guarani, você vai ver qual é a antropotécnica daquele grupo dada a constelação, qual é a forma daquele mundo. O exercício na bolha é um exercício de ressonância amiga. Aí já é um outro exercício. Você tem que ver um exercício para cada forma de mundo. É aí que a antropotécnica casa com a esferologia.