O professor Oswaldo Giacoia Junior ministrou a aula online Formação de formadores: uma perspectiva nietzschiana no dia 03 de julho de 2020. O vídeo abaixo traz um excerto da fala de Giacoia sobre a tarefa principal do educador de acordo com o exposto por Friedrich Nietzsche em seu texto III Consideração Extemporânea: Schopenhauer como Educador, nº1.

Transcrição

“Como nós nos encontramos a nós mesmos? Como o homem pode conhecer a si mesmo? E aqui é que aparece para Nietzsche a magna tarefa do formador. O educador é aquele que prepara e que mostra o caminho para o si próprio. 

E aqui há a diferença fundamental entre Nietzsche e Sócrates, porque o educador, para Nietzsche, diferentemente do homem socrático, não é aquele que se volta para a própria interioridade, que mergulha no interior de si mesmo. Ao contrário. Para Nietzsche, o caminho que leva a si mesmo passa pela exterioridade, pelo contato com o outro e, sobretudo, pelo contato com o seu educador. 

Cito Nietzsche aqui: “Que a alma jovem volva o seu olhar retrospectivamente sobre a vida e pergunte: o que, até agora, verdadeiramente, amaste? O que atraiu a tua alma? O que a dominou e, ao mesmo, tempo a felicitou? Coloca diante de ti a série desses venerados objetos” – objetos de amor – “e, talvez, eles com sua essência e sucessão te proporcionem uma lei fundamental do teu autêntico si próprio. Compara esses objetos. Vê como um complementa, alarga, sobrepuja, transfigura o outro. Como eles formam uma escada sobre a qual, até agora, te elevaste para ti mesmo, pois a tua verdadeira essência não jaz na profundidade profundamente oculta em ti, mas se encontra imensamente acima de ti, ou, ao menos, acima daquilo que atualmente tomas como teu eu”

Essa passagem é decisiva: “Teus verdadeiros educadores e formadores revelam-te o que é o verdadeiro sentido originário e a matéria fundamental da tua essência – algo inteiramente ineducável e não-plasmável, em todo caso dificilmente acessível, algo preso, entravado que tais educadores conseguem liberar. Teus educadores conseguem não ser senão os teus libertadores. É este o segredo de toda a formação: ela não proporciona próteses artificiais, narizes de cera, armações óticas – pelo contrário, aquilo que tais dádivas” – ou seja essas dádivas artificiais – “conseguem proporcionar é apenas arremedo de educação. Educação, porém,” – escreve Nietzsche – “é libertação, remoção de toda erva daninha, entulho, vermes que querem atingir a delicada semente da planta; educação é jorro de luz e calor, amoroso murmúrio de chuva noturna; ela é imitação e adoração da natureza, lá onde esta é maternal e misericordiosamente disposta; ela é aperfeiçoamento da natureza, quando previne e volta para o bem os seus fiéis e impiedosos ataques, quando estende o véu sobre as manifestações da disposição madrasta e da triste incompreensão da natureza”. 

Este é o ideal do educador para o jovem Nietzsche. Vocês percebem? Esse ideal da educação tem a ver aqui com o cuidado. Fundamentalmente com o cuidado e o cultivo que prepara, dispõe o educando, coloca o educando no caminho que leva ao seu si mesmo, àquilo que é a sua matéria fundamental, que é o seu si próprio. O educador não faz senão aquilo que faz o botânico, ele cuida da planta para que ela se desenvolva da melhor maneira possível. Educação, formação é, fundamentalmente, para o jovem Nietzsche emancipação, libertação, capacidade de promoção da verdadeira singularidade, da autêntica personalidade. O contrário absoluto da instrumentalização e do desenvolvimento de virtudes meramente operatórias que visam adaptar alguém às exigências heterônomas da utilidade social e do mercado de trabalho.” 

 

Assista à aula completa em: https://bit.ly/3l5aFbx