José Ortega y Gasset foi apresentado em uma aula online do minicurso Introdução aos filósofos inovadores: uma compoesia, no dia 20 de maio. Após suas exposições iniciais, os professores José Paulo Teixeira e Margarida I. Almeida Amoedo conversaram e responderam dúvidas dos participantes.

Os principais destaques desse momento da aula encontram-se roteirizados abaixo. Assista ao vídeo e acompanhe o guia para novas leituras do diálogo sobre Ortega y Gasset. Envie comentários e dúvidas para o e-mail acidadefutura@gmail.com

 

Os desafios da educação atual sob a perspectiva do pensamento orteguiano – 1m34seg

Intervenção do público: Os rumos do ensino não estão recuperando ou escutando a necessidade que o Ortega destaca sobre o homem culto e a importância do pensamento humanista. As questões de um pensamento humanista, da fidelidade a si mesmo, da singularidade como resposta ao mundo… estão jogadas fora no processo educacional. E a própria inovação tecnológica não tem contribuído, mas ido, justamente, na direção contrária. 

Prof. Margarida Amoedo: Ressalta que, de um modo geral, Ortega, que tem fortemente preocupações de natureza formativa, não é propriamente um pensador do ensino. Se Ortega fosse hoje chamado a apreciar o estado do ensino, no Brasil ou Portugal, certamente seria muito crítico ao identificar uma espécie de modelo único e pensamento uniforme, quase um molde que se impõe nos modos de funcionar da educação escolar. A professora destaca a distinção que quem se dedica à filosofia da educação sempre é forçado a fazer: a diferença entre educação em geral e educação formal, pois há modalidades do cumprimento das grandes finalidades educativas do ser humano que podem e se cumprem fora da escola. A professora aborda a possibilidade do desaparecimento da escola, não advogando nesse sentido necessariamente, mas concebendo que haja, futuramente, alternativas preferíveis à chamada educação formal. Apesar disso a educação jamais poderá dispensar seu esforço pelo cumprimento da preparação indispensável para que o indivíduo leve uma vida própria pela qual é capaz de responder fazendo escolhas que são dele. Mesmo que a escola chegue a uma tal decadência que deixe de  justificar seu tipo de organização atual, alguma educação formal terá que haver como alternativa. A educação é inescapável ao ser humano. É preciso olhar a escola e fazer propostas para que ela deixe funcionamentos desumanos e se transforme de acordo com muitos dos imperativos sublinhados por Ortega. Isso precisa ser constantemente avaliado em uma perspectiva crítica e aprofundada, sem desespero, porque o que não se fizer bem a nível de educação escolar vai ter que ser feito com mais esforço fora da escola, mas ainda com esforço educativo.

Como enfrentar o ceticismo e o relativismo atual – 12m 09seg

Pergunta do público: Como Ortega ajuda a compreender esse cenário de relativismo no qual vivemos? Como fazer para que ele não seja tomado facilmente, fundamentando um ceticismo radical que nos lança em um perigoso vale tudo?

Prof.º José Paulo: A filosofia de Ortega oferece passagens e possibilidades para enfrentar de uma forma tranquila e firme a potência negativa da existência. Destaca 2 caminhos contra o relativismo e o ceticismo. O primeiro é a busca pelo entendimento do que é o sentido do viver, a razão pela qual fazemos as coisas. Ortega tem um pensamento paradigmático quando ele define a vida como algo imprescindível, relacionando isso à pessoa que ama e o ser que é amado. Nesse gesto amoroso, que o professor chama de inteligência da razão vital, Ortega faz uma relação direta entre a relação de amor com confiança e fé na vida, com uma conexão entre o eu e suas circunstâncias, tempo e entorno. Ortega também acentua na sua proposta filosófica a fábrica das inconexões humanas – uma posição que é mais grave do que o ceticismo, o relativismo, a perda das crenças. Ele diz que a inconexão é o aniquilamento. O ódio fabrica a inconexão, isola e desliga atomiza, pulveriza a individualidade e o mundo. Ele observa que lutar com o inimigo significa compreender e exigir que a verdadeira tolerância é uma atitude própria e robusta da alma humana. O professor considera que essa a filosofia da inteligência do amor é a resposta que o Ortega apresenta para enfrentar esses  desafios relacionados a essas potências de negação da vida.

Prof.ª Margarida Amoedo: Ortega é inflexível e nunca pactua com o relativismo de nenhuma espécie. Quanto ao ceticismo, Ortega relembra que o filósofo tem sempre que gerir momentos de dúvida e que o começo da atividade filosófica tem sempre algo que emana da dúvida. Destacando Descartes, ele traz a expressão e o trocadilho de que todo filósofo principiante tem algo de cético, mas quem é cético  nunca passará por principiante. 

Erudição da sensibilidade, categorias de interpretância e interface da literatura com conceitos orteguianos – 18m 58seg

Pergunta do público: Como podemos identificar, dentro da abordagem hermenêutica, a interface entre Ortega e os estudos literários na contemporaneidade.

Prof.ª Margarida Amoedo: Nas questões da formação da sensibilidade, é preciso distinguir vários planos. Em um texto de 1914, Ensaio de estética à maneira de prólogo, Ortega faz uma observação irônica a afirmação estética com hora marcada. Para ele, não é concebível a possibilidade de investir na formação da sensibilidade de uma forma que não implique no todo da pessoa. A professora considera que todas as referências de Ortega – do ponto de vista da estética da sua própria compreensão do sentido estético da vida, da compreensão de que a vida tem um sentido estético, ético, – remetem à necessidade do ponto de vista, por exemplo, da formação para que os mais jovens sejam capazes de abrir ao máximo seus horizontes. Na concepção geral orteguiana, para entendermos a profunda multiplicidade da vida humana, não seria possível reduzir toda essa riqueza apenas naquilo que é resultado de uma análise mais formal ou mesmo formalista. Um texto resultado de uma conferência na abertura de um museu em que Ortega aponta a vida como arte é uma leitura necessária da educação estética e ética do ser humano a ponto qual que, criticamente, ninguém se satisfaria com uma abordagem meramente formalista, por exemplo, do texto literário. 

Prof.º José Paulo: Existe uma frase do Ortega sobre a relação que ele faz entre a pessoa e o indivíduo, o eu e sua circunstância. Nela, ele diz que o indivíduo Dom Quixote é o indivíduo da espécie Cervantes. Essa relação entre o personagem e o autor da obra em parte responde essa questão da conexão entre filosofia e literatura – não do ponto de vista da hermenêutica, mas da fenomenologia ou dessa tomada de distância que essa relação exige no encontro entre os que fazem a vida ou escrevem uma obra. Essa atitude executiva dos diferentes planos de vida, o plano de vida que temos no cotidiano tem haver com a aventura de estarmos vivos. Esse viver é um aventurar-se e esse processo de aventura da vida é um processo também de destinar-se. Por isso que não tem como ficarmos, nessa relação com a vida, do ponto de vista filosófico e literário, separando o personagem dos autores, do sujeito, dos indivíduos. Enfim, dessas pessoas que são personagens das nossas histórias.

Ética de alteridade, práticas neoliberais e a prevalência da ótica da economia na defesa da vida durante a pandemia – 28min 29seg

Pergunta do público: Em que medida podemos encontrar nas reflexões de Ortega uma ética da alteridade como alternativa aos modos de subjetivação dos modos neoliberais responsáveis pela massificação do sujeito prostrado ao nosso modelo econômico? A pergunta refere-se ao momento atual, no qual a preocupação fundamental por parte do Estado parece ser a defesa da vida apenas segundo a ótica da economia. 

Professor José Paulo: O giro ético é, justamente, aproximar um pouco nosso tempo e o mundo de pandemia, que é um mundo cético, relativista e reducionista, ao pensar a vida de uma forma mais focada em uma das suas dimensões importantes como a economia, mas essa economia da vida não pode estar separada da própria ética ou do valor que a vida acaba tendo na relação com a economia. Se precisarmos fazer uma escala ou colocar isso dentro de uma medida de valor, sabemos que não existe economia separada da vida – em particular no Brasil com a situação de um governo que não apenas descuida ou de alguma forma não prioriza as questões relacionadas à vida e à saúde das pessoas, mas que tem uma relação de desprezo, uma situação que podemos classificar de fascista, autoritária, totalitária. Nesse contexto, você na sua responsabilidade de governante expressa um pouco a própria relação que existe entre os governantes e os governados. Essa dimensão ética da vida está evidentemente associada à tomada de decisão das pessoas em relação às suas prioridades. O professor destaca que esse é um momento importante para ler e conversar mais sobre o projeto filosófico de Ortega, porque ele traz de volta a filosofia para a vida, para a proximidade com o que nos circunda, que são as pessoas com as quais a gente se encontra e o drama dessas pessoas. Essa é uma questão ética, mas é preciso destacar que essa ética é inseparável da questão política, da questão da decisão da governança e da responsabilidade pela sustentação e existência dessas pessoas, no caso de populações inteiras que, agora, estão vitimadas pela pandemia.  

A tematização da morte na filosofia de Ortega – 32min 57seg

Pergunta do público: Na filosofia de Ortega, aparece a tematização da morte, do morrer ou do luto? Existe um diálogo com o que é estabelecido por Heidegger? 

Prof.ª Margarida Amoedo: A resposta é categoricamente não. Na verdade, um dos traços mais evidentemente distintivos entre Ortega e o filósofo Unamuno é o fato de Ortega dizer que a morte faz parte da vida e, portanto, sua concentração do ponto de vista reflexivo é na vida e nos problemas da vida. Não significa que não exista referências à morte, mas a morte não é um dos temas por excelência da filosofia orteguiana. Entretanto, é possível estabelecer algum confronto entre o estilo de pensamento orteguiano e de Heidegger. 

Prof.º José Paulo: A filosofia do Ortega é a afirmação da vida. O professor identifica uma diferença importante entre Heidegger e Ortega, feita por ele na distinção entre o uso que Heidegger faz do conceito de cuidado ou de cuidar-se e o conceito de preocupação, uma categoria axial desenvolvida em As Orteguianas. A preocupação orteguiana não é apenas em relação à existência do ser. Na sua interpretação, a perspectiva de Heidegger é muito mais existencialista do ponto de vista da razão prática do existencialismo. Ortega tem uma relação com a vida, evidentemente fundada na sua materialidade, no aspecto físico, mas ele tem um recorte, um apelo espiritual ou transcendental que faz com que a morte, de alguma forma, seja vista e seja tratada como uma dimensão da própria transcendência humana. Essa marcação da diferença entre preocupar-se e cuidar-se pode ajudar a compreender o aspecto entre vocação e futurição, entre o sentido da própria vida com a destinação da nossa vida. Esse é um ponto de encontro e também de desencontro entre as duas filosofias.

A contribuição da filosofia orteguiana para uma vida pulsante – 38min 29seg

Pergunta do público: Hoje considero a escola desconectada da realidade dos alunos, professores, famílias e comunidades, embora reconheça o esforço feito nesse sentido.  A filosofia de Ortega poderia contribuir para que essa fosse uma vida pulsante?

Prof.º José Paulo: A obra de Ortega tem várias entradas e não podemos reduzir ela a sua proposta pedagógica educacional, mas Ortega fala da escola como a escola da vida. Ainda muito jovem, ele reflete sobre a pedagogia da paisagem. A escola continua sendo e ela evidentemente precisa ser reposicionada dentro de um projeto democrático e de um projeto político na formação das gerações. O tema da vida é inseparável do tema da geração e do tema da formação humana, da existência humana. Nesse aspecto, a contribuição do pensamento orteguiano é muito importante de duas maneiras principais. A primeira é o programa da sua filosofia que ele chama de proposta de inteligência do amor vital, componente importante de um programa educacional que vale para a atual e futuras gerações. O segundo aspecto desse programa de afirmação filosófica em favor da vida é que a vida não nos é dada pronta, ela precisa ser permanentemente trabalhada, refeita e de alguma forma aperfeiçoada. O estamos tentando fazer com o programa Filósofos Inovadores e o Seminário Exigências da Educação é tematizar a exigência educacional e a  necessidade de fazer da educação o coração do projeto de democracia de uma cidade, de um país. Esse é o tema do nosso tempo a questão da formação de formadores e da formação das próximas gerações.

Assista à aula completa aqui.