por Regina Teixeira

Denominado resumo temático, este texto foi construído a partir de uma leitura cuidadosa da tese de Hardt (2004), intitulada “Os fios que tecem a docência”.  O particular dessa reflexão é apresentar as questões relativas às categorias de análise usadas por Hardt que é um dos aspectos que poderá subsidiar futuras pesquisas sobre formação de formadores do Núcleo de Vocações e Profissões de Futuro da Cidade Futura.

Para tanto as dimensões de análise que a autora da tese elegeu como categorias do processo de coleta e análise dos dados, inspirada em Larrosa, são: a dimensão ótica, que designa as formas como o professor se vê; a dimensão pública da profissão, que expressa uma vontade de identidade; a dimensão normativa, que insere o sujeito-professor em um cenário complexo implicado por valores, regras e juízos. Essa dimensão normativa foi a dimensão mais presente nas práticas dos pesquisados; e, por fim, a dimensão da prática enquanto formação continuada, que implica descobrir o que o docente imagina poder e dever fazer nas dinâmicas da atividade profissional de acordo com Hardt (2004).

Os Estilos de Docência identificados pela pesquisadora foram: docente intelectual, docente educador, docente técnico. Hardt escreve que o intelectual nessa análise é baseado no conceito Foucaultiano, ou seja, “o intelectual deve ser um destruidor de evidências e universalidade, reconhecer fraquezas e fragilidades, expressar vontade de deslocar-se, sem cessar, para sempre estar aberto para a novidade” (FOUCAULT apud HARDT, 2004, p. 45).

Vamos discorrer sobre a análise feita considerando as Dimensões, inspiradas em Larrosa, e os Estilos de docência criados pela autora, a partir dos discursos, práticas e documentos institucionais.

Das Dimensões e os Estilos de Docência

As quatro dimensões estão assim apresentadas por Hardt (2004, p.167) na tese:

  • Como o docente se vê (Dimensão Ótica). O docente intelectual se vê a partir de um campo do conhecimento; o docente educador a partir de uma missão a cumprir; e o docente técnico, a partir de um domínio especializado de um campo do conhecimento.
  • Considerando a identidade que se apresenta (Dimensão Pública), o intelectual se apresenta comprometido com o conhecimento; o educador se apresenta comprometido com a tarefa e com a instituição, numa perspectiva de função profética; o docente técnico é o expert que tem o compromisso com a especificidade de um conhecimento.
  • A inserção do sujeito-professor em um cenário complexo implicado por valores, regras e juízos (Dimensão normativa), o intelectual relativiza o instituído, onde seus contratos de interação são em função da relação com o conhecimento; o educador apela para o afetivo, moral e ético a partir de ações centradas nas regras e normas institucionais; e o técnico controla o domínio do conhecimento por meio do sistema normativo vigente, sendo que o normativo é referendado na necessidade da ordem.
  • Quanto a formação continuada (Dimensão da prática), o intelectual vincula a docência com a pesquisa e afirma que torna-se melhor em função da pesquisa e o foco é um campo de atuação específico; o docente educador supervaloriza a pedagogia e seus temperos e por isso o foco é a formação técnico-metodológica; o docente técnico deseja consolidar e incrementar a especialização e precisa formar-se para ser o melhor técnico naquela especialidade.

Da análise de Hardt (2004)

Diante dos dados apresentados pela pesquisa, percebe-se que o docente educador é o mais institucionalizado, ou o que melhor atende às regras e normas da instituição, portanto é que está mais envolvido com as relações de regulação e obediência do que com aspectos da identidade.

Em todos os três estilos, há resistência, escreve a autora. Quando em suas práticas demonstram outras formas de inserção, fazendo da sala de aula seu campo de luta e nesses momentos eles buscam e defendem novas formas de contratação que mudariam o acesso ao conhecimento e a atuação e com isso poderiam dispensar os cursos de atualização desprovidos desse sentido.

Novos contratos que não significariam inserção institucional, mas sim condições para produzir conhecimento a partir de oportunidades criativas. Então surge o Docente Militante, que é um estilo, que é um estilo que, segundo a autora, atravessa os três tipos; intelectual, educador e técnico, mas não integra nenhum deles.

Gostaria de destacar que a pesquisa encontrou diferenças de estilos de professores quando analisadas as práticas e os discursos. Alguns com amplo domínio especializado, sem formação pedagógica, que demonstraram uma prática dinâmica e versátil sem carência didática. Mas, nos discursos dos pesquisados surgiu a necessidade de preparo didático, que deveria vir da pedagogia. Essa necessidade foi identificada tanto nas falas dos professores quanto nas dos alunos, pois diziam que esse componente – a didática – não está no campo específico do saber.

Para isso a própria autora indica uma possibilidade: que profissionais de outros campos do conhecimento, para além dos pedagogos, se envolvam em projetos para buscar algumas respostas para as realidades vividas.

É com essa contribuição de Hardt que concluo esse resumo temático, indicando que sua tese apresenta outras questões que poderão ajudar nos propósitos do Núcleo de Vocações e Profissões de Futuro.

Anexos

Leia a ficha técnica do texto

Link de acesso à tese de Os fios que tecem a docência de Lucia Schneider Hardt