por Francisco Teixeira

A pensar no 25 de abril de 1974, sem o qual não seria.

Derrida não é uma figura simpática, pelo menos para quem o não conhece ou não tem o hábito da leitura. Certo senso-comum associa-o à ideia de obscuridade artificial da linguagem e do pensamento, a um certo gosto niilista por uma gramática e uma semântica barrocas, que obnubilariam mais que esclareceriam. Quem assim se coloca, coloca-se do lado da luz contra a obscuridade, no caso, de Derrida. Este senso-
comum não é completamente erróneo. De facto, Derrida parece fazer gosto em torcer a linguagem até aos limites daquilo que ela pode dizer. E isso pode ser antipático, desconfortável e abrir espaço à fatuidade. Mas esgotar o gosto de Derrida com a linguagem neste senso-comum seria pueril. Mais do que isso, o que Derrida mostra nos seus textos e nas suas conversas é como a ideia de uma iluminação total do real, na linguagem ou através dela, leva consigo uma desatenção ao modo como este se tece, existe ou constrói, sempre tocado por uma obscuridade, um ainda não-dito.

O projeto iluminista de tudo iluminar, no sentido de exaurir o conhecimento de todo o real, incluindo as suas leis de funcionamento e dominando toda a causalidade como um assunto de engenharia (biológica, física, digital ou social), de “simples” descrição ou apresentação de dados, hoje agregados em quantidades astronómicas através de um Big, Big data, parece ter-se consumado, ainda que com o efeito colateral não despiciendo de esvaziamento de toda a vida humana (enquanto irredutibilidade a sistemas de categorização universal), agora à disposição do Estado ou das grandes corporações industriais da vida e dos dados. Se no início o grande projeto iluminista
previa e desejava iluminar e emancipar o Humano, o resultado parece ter sido o de o esturricar, através da integral visibilidade do mundo. A ver vamos como corre.

De qualquer modo, que os grandes empresários, os donos do dinheiro, da tecnologia e das comunicações integrais, assim como o medo vital, achem normal a “geolocalização dos infetados” (de latim infectus, aquele que está machado, impregnado de algo ou é imperfeito, e que os peritos, jornalistas e os políticos continuam a usar, com absoluto despudor) coloca-nos na continuidade daquela
ideologia visibilizadora em que o invisível e o incerto são expulsos de todo o real como o mal, o infecto, a abater. De modo não intencional embora, o ideal emancipatório da ciência aparece agora capturado por uma engenharia e um cientismo social pós-liberal e distópico, assente no poder do dinheiro e da vanguarda tecnocapitalista. Também não sabemos como correrá o projeto.

Não que possamos viver sem ciência e sem tecnologia ou que estas não sejam as alavancas essenciais do nosso modo de vida contemporâneo de progresso material, social e cultural, sem igual na história da humanidade. A ciência e a tecnologia, como disse algures um filósofo contemporâneo, foi “uma coisa que nos aconteceu”. Nada a fazer. Não podemos, simplesmente, prescindir da tecnociência e substitui-la por um conhecimento místico-poético.

A questão é se podemos prescindir, para salvar alguma coisa do Humano, da invisibilidade e opacidade do mundo que nos é apresentada e produzida pelo olhar das ciências sociais, da filosofia, da literatura e da razão prática (de que António Costa, por exemplo, deu um magnífico exemplo, ao decidir contra a opinião dos peritos do Conselho Nacional de Saúde Pública) e da sua capacidade de influenciar a política
pública e a ação coletiva, contra o totalitarismo pericial.

Não quero ser ambíguo. As ciências sociais, a filosofia, a literatura e a razão prática (razoável e não estritamente constringente) são não determinísticas, infetadas por certa pré-compreensão do universo, (aparentemente) irredutíveis à Big, Big data, dada a imprevisibilidade dos sistemas biológicos humanos e linguísticos. Neste caso, a infeção salva. A pré-compreensão ética e metodológica das ciências humanas e da razão prática não determinísticas são assim essenciais para a configuração da política, da imaginação e de uma vida coletivas que deem valor ao humano, à irredutibilidade do humano.

É aqui que Derrida parece situar o seu “gosto do segredo”, uma “estratégia” na “cena filosófica”, “que tem decerto a ver com a não-pertença”, que “desqualifica interminavelmente todos os esforços que se podem fazer para o determinar”. Do ponto de vista político (prático), a consequência é a de que “exigir que se faça sair tudo à praça e não haja foro íntimo, é já o fazer-se totalitária da democracia. Posso transformar o que disse em ética política: se não se mantiver o direito ao segredo, entrar-se-á num espaço totalitário”¹.

Para manter e aprofundar o segredo precisamos das ciências sociais, da filosofia e da literatura, contra e limitando a tecnociência, ainda que sem  tecnofobia.

O gosto da integral visibilidade do mundo, alastrado, de modo cego, à totalidade das relações humanas, através da “protocolização” universal (da educação pública à vida doméstica), é pornograficamente destrutor da vida social e da possibilidade da confiança, que sempre exige, para ser confiança, um gesto de risco e aposta no escuro. Ora, sabemos que sem risco, sem opacidade e confiança, não são possíveis nem a democracia nem a liberdade como espaços de encontro, deliberação e dissidência. Que a biopolítica, o controlo das nossas condições de vida biológica e ação, se transforme em totalitarismo biopolítico e, depois, como escreveu um filósofo da moda (mas certeiro), em totalitarismo psicopolítico, é um risco que temos de combater, uma guerra cultural que está já entre nós, essa sim, intencional e ideologicamente dirigida, e que os democratas-liberais têm que vencer.

P.S. Percebendo embora as dificuldades práticas do problema (mais ou menos óbvias para quem tenha boa-fé) vale a pena afirmar que a televisão é perigosa e que o ensino via plataformas digitais nem de longe pode substituir ou emular o ensino presencial e analógico e que pode e vai incentivar, certamente como efeito não
intencional, mas perigosíssimo, essa deriva da visibilização total do real. Na dúvida, sendo prudente, apaguemos a televisão e tapemos a câmara do computador.

¹Derrida, Jacques; Ferraris, Maurizio (2006): O Gosto do Segredo, Ed. Fim de Século.

SOBRE O AUTOR

Francisco Teixeira é doutor em Filosofia e professor de Ciência Política na Universidade Lusófona do Porto, Portugal.