José Paulo Teixeira, PPA.

Há algo de ‘primeira vez’ neste meu encontro com María Zambrano. Por isso deixo-me guiar apenas por esta conjunção inseparável de ‘feliz encontro’, uma aproximação entre a filosofia da razão poética e estas divinações primeiras da compoesia de uma aurora autoral.

Ambas aparecem como evento primordial do inefável modus operandi filo + sófico e com + poético transmutados em exercícios de leitura e escrita inventiva.

Já na poesia do primeiro encontro sela-se, e permanece, o desejo de eternizar cada uma de suas palavras-poemas em instantes inimagináveis ou mesmo impossíveis, irrealizáveis, como se nunca pudessem acontecer, mas acontecem. E pela segunda vez – e uma terceira de uma série de outras que retornam -, renascem amalgamadas em colações meditativas como notas musicais que dançam e gritam, ressonantes, e colocam seus leitores em outro patamar as notas sobre o método e todo um recital-guia de exercícios de exigência filosófica que ela mesma se submeteu.

É como se esse meu contato com Zambrano fosse vincado pela simplicidade do divino e a partilha de segredos que somente um alma poética guarda e reparte como nenhum outro filósofo já o fez. Pois é o que acontece quando nos deixamos aproximar dos tempos sagrados da primeira leitura e da segunda e, a cada virada de página, ao longo da arquitextura que se abre, é como se as luzes se ascendessem para ressaltar todos os segredos da paisagem e ouvir todos os ecos do silêncio.

O simples transformado em clássico na sintonia de seus passos e no compasso da sua poesia. Até o ponto em que no reencontro com o divino, já dentro do espaço sagrado da sua mensagem, o presente que ali se infiltra revestido de passado retorna na aurora do pensamento quando a filosofia ainda não tinha seu lugar na história. Tão raro esse acontecer como o é pensar inventivamente no limite do cambiar-se, metamorfosear-se a cada deslocamento entre o ser e o nada ser, fontes humanas das divinações primordiais, pois ainda não havia filosofia nas entranhas da compoesia de outrora.

Talvez seja isto que faz do seu pensamento poético a originalidade de uma filosofia que se faz e se exercita, se compõe e se reveste da exigência perene dos criadores da história. Afinal, um grande autor, poeta ou pensador, raramente se manifesta em deslocamentos tão
desconcertantes como este abrir caminho de María Zambrano em seu clássico O homem e o divino (1955).

É como se ela tivesse escrito um livro de poemas para cada um dos seus leitores e tivesse entregue em mãos junto com o rito sacrificial ressurgente a se pôr e renascer do sol.

Suas palavras são bússolas que ecoam as cifras das prescrições humanas diretamente de coração a coração. Não, não… elas não foram escritas para responder as perguntas que faço, nem para dar asas à imaginação instituinte das memórias digitais instituídas, como estes ditos nestes tristes trágicos tempos de descaso e indiferença ao seu apelo poético.

Mas talvez seja isso que faz de Zambrano uma espécie rara na constelação dos filósofos pós-tudo de tantos “isto e aquilo” e aquilo tanto mais e mais, para deixar a cada um dos seus leitores-ouvintes o sentido de suas evocações e desafios para se adentrar à sua filosofia poética com o poder de ultrapassagem aos estados de dor e orfandade e fazer deles refúgios da humanidade náufraga e indiferente à desdivinação do mundo.

Enfim, seja este nosso “primeiro encontro” nada casual, fruto de endereçamentos certeiros de outros companheiros de viagem e entregue com tanto zelo e discernimento todo o seu acervo musical filosófico da compoesia de uma amizade atemporal.

Talvez seja esta a lição da Mestre com seus alunos e leitores, em suas aulas e conferências e encontros realizados que retornam aqui em nossa comunidade de leitores bem capazes de dar e multiplicar, na inspiração poética das frases germinais, palavras-ecos de um coro de filósofos-poetas que também fizeram das divinações primeiras o encontro do pensamento com o destino do humano.

Na compoesia que escrevo e onde ressoam as palavras de Zambrano, o que parecia impossível sonhar, faço sumir deste texto-testemunho de leitor as polícias das aspas, o que dificulta qualquer referência de fora dos veios dos seus versos e pensamentos, da sua razão poética que se irrompem da escrita genuína, delicada e poderosa, arremessada como flecha no coração de destinatários incertos.

Conheça a vida e obra de María Zambrano na ficha biobibliográfica escrita pela professora Margarida I. Almeida Amoedo.