Nestes tempos em que a comunicação parece sujeitar-nos a frieza dos pixels, nada mais justo que lançar o olhar sobre matérias sensíveis do espírito humano. Digo isso, em razão da ausculta recente que fiz do relato do escritor José Miguel Wisnik sobre sua história com
Haquira Osakabe.

Ilustre desconhecido para mim, este educador sansei andou fazendo das suas para anotar na memória geral o que chamo a proximidade do ato educativo. Quem revela isso de maneira quase embargada na voz é Wisnik em relato amoroso dedicado àquele que influenciou sua vida e muitos de sua geração.

Haquira Osakabe

Haquira Osakabe | fonte Portal Unicamp

Sigo agora os passos dessa escuta sensível de modo a fornecer em palavras um pequeno itinerário do que ouvi.

O educador que julga ter aprendido algo, testemunhará o fruto reluzente sobre a mesa, daquele que, tendo sido ensinado, retornará ao mestre o que ensinou a si mesmo. Assim, o educador nada mais é do que uma promissora testemunha ocular do feitos que amealhou no mundo sobre como ser alguém constituído de integridade.

Foi isso o que ouvi de Wisnik sobre Haquira: a ausculta de toda um sentimento de época, a minha época.

De início, o relato demarca a titularidade da narração – como vocês verão – ele vai falar da figura do educador invisível e o seu trabalho de vida, na dimensão pessoal e oculta da educação. Por que será que Wisnik enaltece a figura do educador invisível? Arrisco dizer que é porque, ecoando sua própria experiência, nestes tempos de tutoriais e de influencers digitais, estamos todos ausentes dessa relação preciosa, tão necessária aos processos de individuação na formação humana.

Wisnik declara seus começos de vida, onde nasceu, como conheceu Haquira e o que sucedeu, pontuando todos os tópicos possíveis de alguém que vai se constituindo em sua fragilidade vocacional, em busca de ser algo para o mundo e alguém para si. É então que uma sucessão de episódios revela nele a época de combate político e cultural que viveu do final dos anos 60. Aqueles que estão examinando seu futuro, têm aqui nessas passagens a memória de alguém que presenciou a batalha campal ocorrida entre uspianos e mackenzianos, cápsula real das atuais guerras narrativas entre esquerda e direita.

E tem mais, Wisnik emoldura aí a força dos festivais da canção, a tropicália e o cinema novo, o teatro de arena e o teatro oficina, a poesia concreta e as trincheiras revolucionárias e suas barricadas do desejo. Mas, olha só, de toda as cenas que ele descreve, todas muito
antológicas, seus olhos brilharam mesmo quando narrou estar junto com o mestre Haquira nos telhados da escola de filosofia, arrancando arames para as barricadas…

Wisnik segue sua narrativa, pontuando os passos e anos de Haquira na academia, os ofícios linguísticos do saber e os saberes da literatura como oficio. Aqui, o antigo aluno de Haquira, mesmo tornado seu colega nas convergências da vida, conta a passagem do mestre pelas terras estrangeiras do velho e do novo mundo e indica, no contraponto, que todos e tais ofícios, apenas atalharam Haquira para o reencontro com a sua vocação literária e poética. Neste momento, Wisnik adentra Fernando Pessoa, esteio no qual Haquira vai dedicar sua produção textual, seguindo o poeta português, entre almas e estrelas.

Wisnik lê livro de Haquira Osakabe

José Miguel Wisnik leu trecho do livro de Haquira Osabake durante seu depoimento no minicurso Maquinações II | foto Taynara Nakayama

Uma frase solta surge na sala, Los Angeles é igual a Praia Grande! Era o aluno a dizer que Haquira era e foi sempre o mesmo educador invisível, alguém que não galgava a fama dos púlpitos em favor da proximidade amorosa exigida à feitura de seus alunos e seus leitores. Basta ler os depoimentos em fila contidos no livro Fernando Pessoa: entre almas e estrelas. Talvez aqui, seja isso o que se reclama atualmente na economia da inovação, aquela do sujeito que tudo sabe e opera, mas desprovido ficou de toda empatia na lida com um igual. Haquira, indica Wisnik, era uma criatura doadora de empatias, a troco de maestrias.

Ao caminhar para o fim do seu relato, Wisnik se denuncia no embargo anunciado da voz, ao ler um trecho de Haquira, a propósito de homenagem de professores brasileiros ao seu trabalho. Minha vontade foi de transcrever a passagem, mas na voz de Wisnik, o lido soou como sopro de afeto, para além de toda letra traçada. Basta ouvir e olhar o exemplo de como alguém tomou para si a arte que recebeu do mestre.

Siga a escuta sensível.

Ouça abaixo o áudio do depoimento completo de José Miguel Wisnik.